SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 22 Junho 2021, 09:28

Natal reciclado

O sol brilha intensamente no meu olhar. Piso gotas de orvalho gélido. Não faz mal se levo os pés enregelados. Não faz mal se o meu coração está ferido de sentimentos perdidos. Não tenham pena de mim. Sou um eterno vagabundo que deambula pela cidade à procura da infância assassinada. Vivo na rua. Sou rico. Possuo palácios abandonados; casas podres a cheirar a urina dos ratos. Sou daqui, sou do mundo. Sou livre.

Caminho pela avenida totalmente iluminada e delicio-me com uma caneca de café e um pão no banco do jardim. Gente boa que passa. Deixaram-.me uma manta quente. Hoje vou pernoitar no grande “hotel dos pombos”. Fecho os olhos e acordo na madrugada gritante e inóspita de copos e garrafas a baiarem na calçada. Felizmente não vandalizaram as inúmeras árvores de Natal com material reciclado que as crianças das escolas criaram. Estão espalhadas pela cidade e só tenho de agradecer esta ideia. Quando eu era criança também construía brinquedos de lata e papel, trapos e lama. Agora tudo mudou. Os pais compram brinquedos caríssimos aos filhos em vez de os ajudar a construir algo. A criança quer aquele boneco que come, anda e ressona, porque a amiga também tem um. E os pais pagam quase 100 € por aquele brinquedo. Um peixinho, uma tartaruga ou um gatinho custavam muito menos e sim eram mais úteis para o desenvolvimento dos filhos.

Vou sair um pouco. Hoje as lojas estão abertas mas as pessoas fugiram para os centros comerciais onde os preços são mais caros. É doloroso ver o esforço dos lojistas e depois sente-se este vazio.

Mas as ruas continuam enfeitadas, trajadas de laços azuis e demais enfeites.

Vou-me embora deixando-vos uma mensagem: -“ Amem a vossa terra e não virem costas ao comércio local. Amem as vossas ruas, mas pensem em arranjar soluções para as casas dos centros históricos. E amem-se uns aos outros. A vida é tão curta, é sonho de momento como diz um poeta brasileiro”.

Deixem-me ir nos caminhos da esperança e nas linhas da saudade.

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