SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 19 Junho 2021, 19:24

Sonhos que ganham asas

Arrasto-me vertiginosamente na rua quente sob uma temperatura que me seca a garganta. Esgoto a água da garrafa de plástico que balança na mala cheia de coisas. Passo firme, sandálias gastas, pés recebendo os salpicos da relva do jardim ainda molhada.

Entro no recinto pretendido. Sou abraçada por sorrisos curiosos. Beiços pintados beijam-me nas faces rosadas. Cheira a laca e a perfumes floreados. É o encontro das massas humanas. Cada uma vinda de todos os cantos, aqui tão perto, ali tão longe.

Observo a plateia composta de rostos familiares. A minha mãe sempre presente. É caso para exclamar: “E Tudo o vento levou” do resto da minha família. Já estou habituada.

Lá fora, empoleirados bem juntinhos lá estão eles. Majestosos e vaidosos são o fruto dum conjunto de sentimentos que pensamentos sensíveis deram corpo e alma.

Encontro-me num palacete há muito sonhado e desejado. Não interessa quem somos, o que fazemos. Interessa que somos um todo, cada um com a sua maneira de expressar o que sente, no papel branco. Mas no geral tudo se encaixa nessa caixa de sonhos, agora desventrados num livro.

Subo ao palco, orgulhosa de mim e leio emocionada o poema para o meu pai. Embragam-me as entranhas do meu ser. Sou eu. Aplaudem-me. Mereço. Deixo o palco, volto para agradecer em conjunto com todos, para todos. Os flaches das máquinas fotográficas estalam como balões de pastilha elástica. Hoje é o nosso dia. Merecemos. Somos gente. Solidários com a dor e a alegria. Homenageamos alguém que nos olha com olhos ternos. Mais emoção, mais adrenalina de continuarmos a ser um só. Somos uma corrente forte e queremos dar esperança a quem nos olha embevecida. Para acalmar o turbilhão de sentimentos, veio o fado. Aquela cantoria profunda que não gostava, mas aprendi a gostar naquela tarde. Escutei-a com o coração aberto, tal como escutei o canto alentejano, recordando os girassóis na planície altiva.

Já é noite. Numa rádio on-line o locutor fala dos nossos poemas, lendo-os com uma voz crepitante. Dá-nos o valor que merecemos. É como se fosse aquela entrevista que nos apetecia dar. Afinal não é todos os dias que um poeta torrejano tem a feliz ideia de criar um grupo no facebook “souespoeta”, juntar 12 pessoas e apresentar um livro com o mesmo título. A ti Carlos Margarido e a todas as pessoas que fazem parte do projeto o meu sincero agradecimento por esta tarde inesquecível.

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