SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 13 Junho 2021, 14:34

O povo e a realeza

O mundo é uma bola de cristal onde a sociedade se encontra a sobreviver, lutando diariamente contra as intempereis da vida. Uns vivem do fruto do seu trabalho, outros vivem dos subsídios e outros dos cursos financiados pelo centro de emprego. Na realidade crua e nua deste país plantado à beira mar, a maioria anseia por ser chamado de doutor, de chefe ou de comandante.

Há uns anos o senhor padre e o senhor doutor eram os mandatários do povo. Estes homens estavam acima de qualquer coisa. A sua palavra finalizava sempre uma discussão ou um conselho. E coitado daquele que estava contra.

Atualmente as coisas pouco ou nada mudaram. Lembro-me que quando estava a tirar um curso superior ia com as minhas colegas almoçar e o dono do restaurante fazia questão de me chamar de senhora professora. Chamei-lhe várias vezes a atenção de que ainda estava a estudar, mas o homem insistia sempre no mesmo. Nunca gostei de divisões. Chamo doutor ao médico que me trata quando estou doente, mas não chamo doutor ao professor que me deu aulas e que por acaso tirou o doutoramento.

Ao longo da minha vida tenho encontrado alguma superioridade nas pessoas que me cruzo aqui e ali. Sempre trabalhei sem cunhas, o que me orgulho muito. Estudava e trabalhava como auxiliar numa escola. Quando ia ter aulas do meu curso, muitas vezes me perguntavam se eu não me sentia inferior por estar atrás dum balcão da escola a servir galões e tostas mistas. Respondia que não, pois o que me interessava era conseguir conciliar as duas coisas. Nunca fui gananciosa. Não sou de andar de nariz empinado, pensando que todos me devem e ninguém me paga. Não faço distinções entre as pessoas. Sou como sou e revolta-me quando encontro pessoas a ocultarem a verdadeira profissão. Há uns anos conheci uma pessoa que dizia que era vendedor de automóveis, mas a mentira tem perna curta e mais tarde veio a saber-se que trabalhava numa empresa de peles.

Não gosto que me chamem senhora ou dona. Costumo dizer que “ A Senhora está no céu!”. Prefiro que me tratem pelo meu nome e desde que não me faltem ao respeito podem tratar-me por tu, porque para mim as faltas de educação mostram-se nas nossas atitudes.

Todas as profissões são importantes e basta de rotular as pessoas, de lhes atribuir cargos que nunca desempenharam, porque dentro duma empresa ou instituição há quem faça limpezas e diga que está sentado à secretária. Isto só revela uma falta de autoestima e desprezo pelo seu verdadeiro trabalho.

Nem todos podem ser engenheiros, cientistas ou doutores. E os canalizadores, os pedreiros, os sapateiros que tanta falta fazem nos dias de hoje. É como na feira medieval de Torres Novas (de 27 a 30 junho), nem todos podem ser reis e rainhas, também haverá o povo onde andaremos todos felizes e contentes trajados a rigor misturados com a multidão.

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados