SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 20 Junho 2021, 17:34

Os Kalyfas e a Academia Pop no Colégio de Santa Maria

Não sei de onde partiu o convite, nem sei quem conseguiu autorização junto da madre superiora do Colégio de Santa Maria, talvez a Ana Zuzarte Reis, mas o que é facto é que os Kalyfas e a Academia Pop, dois conjuntos torrejanos de música moderna na altura dos Beatles, conseguiram efectuar um concerto em conjunto, para as alunas do referido colégio, com o pavilhão a abarrotar de miúdas, algumas já bem graúdas.

A malta da música já teria os seus dezoito anos e a actuação foi preparada com primor, não fosse a coisa sair mal e isso seria uma vergonha junto do público do liceu feminino da então  vila torrejana.

A Academia Pop era dos dois o conjunto mais recente, eu e o Mário Abreu tínhamos saído dos Kalyfas, o Zé Fanha estava nas teclas, o Zé Simões ou o António Correia no baixo e o Zé Vicente na bateria.

Nos Kalyfas pontificavam o Eduardo Galamba, O Vitor Paixão, o João Julião, o Carlos Nicolau e o Inácio nas baquetas.

Não me recordo do Varela ter actuado, mas é bem possível que tenha acontecido porque ele não podia faltar a esta actuação.

O famoso cantor romântico torrejano dessa altura, o José Castilho, também actuou acompanhado pelos Kalyfas e arrasou corações com o Tomight…

Nunca ouvi tantos e tão estridentes gritinhos das meninas e após as actuações o resultado foi um empate em termos de prestação musical e o entusiasmo era tanto que choviam os pedidos de autógrafos.

As músicas eram quase todas dos Beatles e dos Rolling Stones, e o Hey Jude, o Don’t Let me down, o Obladi obladá e o Satisfactions, o Black is Black de entre outros, troaram pelo pavilhão cheios de genica e de juventude daqueles machos torrejanos.

Era o delírio junto das miúdas e para nós a estupefacção de ali estarmos, livres e actuantes num território para nós quase inacessível nos tempos da Pide, mas os polícias não deviam saber inglês…

Pena foi que nessa altura ainda não houvesse televisão, para que se desse conhecimento do evento a todo o país e para que hoje, esta juventude dos sessenta e muitos, pudesse recordar o ambiente, as letras em chinamarquês, as fífias em alta impedância, as violas feitas à mão, as fartas cabeleiras e patilhas, as calças à boca de sino e já agora, algumas corajosas mini saias que algumas meninas fizeram questão de usar, porque o que era bom era para se ver e nós nem reparávamos, porque a trepidação das as notas de música nos enchiam os olhos de humidade.

Fica a grata recordação desse espectáculo e a prova que o amor à música juntou muita malta ao longo dos anos, numa amizade que ainda hoje perdura pese embora o avanço inexorável da idade.

Para as meninas que se lembram deste acontecimento muitos beijinhos de saudade.

Para os mais novos a certeza que há muitos anos atrás a malta já se divertia a valer e levávamos a música a sério como bons amadores que sempre quisemos ser.

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