SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 18:18

Columbofilia –O azar de um campeão (Manuel Dias)

Ainda me parece que foi num sábado recente, mas já passaram largos anos sobre este caso que hoje aqui quis trazer.

A época columbófila estava quase a terminar e nesse sábado realizava-se a prova de Lérida – Espanha, com mais de setecentos quilómetros.

Esta prova de longo fundo era só para pombos bem preparados e com as características para voar grandes distâncias.

Esteve um dia lindo com algum calor e a prova não foi fácil. Como eu não tinha pombos para essas distâncias não concursei e fui abrir a colectividade, ainda por baixo do restaurante Rogério, cerca das quatro horas da tarde.

Não esperei mais que duas horas quando entrou na sala o concorrente Manuel Dias (Linhas), já com dois pombos no relógio constatador, marcados bem cedo. O homem estava feliz da vida e mais feliz foi ficando à medida que os restantes concorrentes iam chegando e verificavam que os dois pombos do senhor Dias estavam bem à sua frente.

Era primeiro e segundo lugar na prova rainha da temporada, o que era um êxito retumbante. Nessa altura ainda não havia relógios padrão e a constatação de fecho só era dada a todos os concorrentes às 22 horas, porque era prova de fundo e essa hora daria tempo para que fossem marcados pombos que chegassem rente à noite se fosse necessário para os vinte por cento da classificação.

E lembro-me do Manuel Dias e do seu filho, ainda um garoto nessa altura, rejubilarem de orgulho e alegria pelo feito conseguido.

A tarde ia passando e por volta das sete da tarde alguém reparou no relógio do senhor Manuel e viu que ele estava parado. Ninguém ousava dar-lhe esta notícia, pois ele ali estava, com a máquina bem à vista já há horas, esperando pacientemente pelas 22 horas para a consagração final.

A paragem do relógio implicava a desclassificação total, sem direito a apelo.

Até que alguém com mais coragem lhe deu a triste notícia:

“O seu relógio constatador está parado e os seus pombos, os seus dois campeões têm que ser desclassificados.”

O homem ficou branco, deu voltas e voltas ao relógio e não queria acreditar. A sua tristeza e revolta eram grandes e as lágrimas afloraram-lhe aos olhos. Seu filho acompanhava-o nessa hora de azar.

Despediu-se respeitosamente e seguiu para casa com a desilusão estampada no rosto.

Felizmente que hoje tal não seria possível, pois existem já há alguns anos os relógios padrão, que dão a constatação de fecho logo à chegada à sede e mesmo em caso de paragem do relógio, este ainda pode abrir-se, dar-se-lhe corda e fechá-lo na presença de dois directores. Também agora todos ou quase todos os pombos-correios já têm uma anilha com ship electrónico, que funciona automaticamente à entrada do pombal, quando regressam das provas.

Já passaram muitos anos, mas este infeliz episódio e o azar que bateu à porta do amigo Manuel Dias foram dos que mais me marcaram em muitos anos de columbófilo.

Termino com a singela homenagem de saudação aos pombos e ao seu dono porque o merecem.

Parabéns campeões.

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