SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 13 Junho 2021, 15:44

José Adriano de Jesus – ( Zeca )

Conheci-o nos então “principiantes” do Clube Desportivo de Torres Novas. Ele, o Chona e o Barata, muitas vezes descalços, utilizavam o “Quintal do Zé Maria” para participar em jogos de muda aos cinco e acaba aos dez.

Depois, começaram uns treinos a sério com o mister Roque, e tivemos direito a usar sapatilhas de qualidade, camisola amarela e calção verde, em que cabíamos quase dois, meias amarelas e uma bola de borracha rija, marca “pirelli”. O mister apartava a rapaziada e treinávamos uns contra os outros, não esquecendo a indispensável preparação física para aquecimento e muitos treinos de passe e desmarcação a três, feitos de baliza a baliza sei lá quantas vezes em cada treino.

Aos domingos, antes das partidas de seniores, lá se arranjava um jogo de vez em quando, contra o Colégio de Andrade Corvo, a Escola Industrial e algumas firmas da região.

E a amizade e sobretudo a admiração que comecei a ter pelo Zeca foi crescendo, pois tecnicamente ele já era um grande jogador, quer com os pés quer de cabeça e revelava uma grande humildade própria dos grandes, jogando quase sempre com um sorriso nos lábios a revelar o prazer que sempre sentiu em jogar futebol.

E era tão fácil pertencer à equipa do Zeca, jogar com o Zeca e vê-lo fabricar golos de toda a maneira e feitio. Eu só tocava na bola no centro do terreno, passava-a ao Zeca e via-o fintar um, dois, três, todos os que pela frente aparecessem, acabando muitas vezes por fintar o guarda redes, entrar pela baliza fazendo golo, apanhar a bola e regressar ao meio campo.

E foram muitas as goleadas que obtivemos, com o grande Zeca como nosso “abono de família” como se costumar dizer.

Fomos crescendo e o Zeca, como não tinha a quarta classe escolar, obrigatória para se poder federar, nunca foi inscrito oficialmente pelo CDTN.

Também cresceu, foi para a guerra colonial (Angola) e ali recebeu um prémio por bravura em combate, de trinta dias no Continente.

Entretanto, ao que me consta, fez a 4ª classe na tropa, bem como o Chona e tiveram como professor o amigo Carlos Pinhão, outro grande desportista da nossa terra. Quando regressou foi inscrito e representou pela primeira vez os seniores do nosso Desportivo.  Vi esse jogo por sinal e a sua exibição deixou muitos adeptos admirados. Para mim, que já o conhecia não foi surpresa nenhuma. Daí em diante começou uma longa e brilhante carreira no Desportivo de Torres Novas, ao mesmo tempo que se tornou funcionário do município, com desempenho superior, materializado na homenagem de funcionário de mérito que a Câmara lhe prestou aquando da sua reforma.

A sua carreira como futebolista foi sempre admirada pelos torrejanos e por muitos adeptos de equipas adversárias, pois o seu empenho em campo, o seu companheirismo, a sua humildade e sobretudo a sua superior categoria, sempre granjearam elogios.

Só havia uma coisa que o fazia zangar, a injustiça, quer dos árbitros quer de alguns adversários. E aí, tinham que contar com o Zeca irritado, como em Mérida (Espanha), numa grande festa para que tinha sido convidada a equipa do Torres Novas. O árbitro era “caseiro”, alguém lhe deu um toque mais ríspido e o Zeca vingou-se, puxou da sapata atrás e aí vai disto que foi uma pressa, o adversário nunca mais o importunaria. Só que os jogadores espanhóis rodearam-no e ao que nos contou um colega nosso, o Zeca tirou a bota e com ela na mão só dizia, venham que a primeira é minha…

Para além da grande amizade que temos, nunca passamos um pelo outro sem que eu lhe diga “toma esta Zeca, depois é só correres e é golo”. E sempre nos despedimos com um sorriso franco de verdadeiros amigos.

Dos inúmeros golos que lhe vi marcar, recordo o golo da vitória sobre o Montijo, que subiu nesse ano à primeira divisão e só perdeu em Torres Novas na última jornada.

Que grande golo Zeca, remate com o pé esquerdo bem de fora da área e toda a gente a ver a bola passar e entrar que nem um tiro na baliza montijense

Que vitória saborosa para os amarelos.

Nesta altura, ainda faz parte dos Veteranos do Clube Desportivo e sempre que a saúde lho permite ainda dá uma perninha com todos aqueles amigos.

Aqui fica a minha justa homenagem, ao um homem, um amigo, um grande atleta e sobretudo um torrejano ilustre.

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados