SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Junho 2021, 08:40

A fruta atrás do castelo

Estávamos de férias grandes e a alguns estudantes amigos que não tinham tido a sorte de irem para as praias com as famílias, juntavam-se outros a estudar na zona de Lisboa e de outros lugares e passavam-se os tempos com brincadeiras e outras actividades mais ou menos lúdicas.

Era tudo rapaziada entre os dezasseis e os dezoito anos e o interesse pelas miúdas bem giras que havia em Torres Novas e de outras que vinham de Lisboa, de Coimbra e do Porto aqui passar férias a casa dos pais, avós ou outros familiares, era redobrado para os rapazes e os encontros no jardim vinham mesmo a calhar para uns namoricos de verão, para uns bailes particulares que ali se combinavam, para se ir assistir a ensaios dos Kalyfas em voga nessa época e para uns passeios e pic-nics da Barreta até às Ribeiras, tudo isto com a manutenção do decoro que as mamãs e os papás das meninas impunham a toda a hora.

A malta, temos que acreditar, esforçava-se ao máximo para respeitar as ordens e não pisar o risco.

Por vezes havia alguns exageros mas tudo isso fazia parte da vida da juventude torrejana de então, onde para além das estudantes em férias haviam as moças aqui residentes, que se impunham pela sua beleza.

Os rapazes, para além dos namoricos e dos grupos que se faziam e desfaziam num ápice, de tomarem belos banhos no rio, tinham também outras distracções mais nocturnas, como o cinema, o futebol, o ténis de mesa, o bilhar na sede do Desportivo, os passeios à avenida e as serenatas, tendo alguns um jogo predilecto, a prova da fruta nas hortas por detrás do castelo, local de má fama para os linguareiros do costume, porque sempre foram muito mais as vozes do que as nozes.

Para esse jogo havia mapas de localização e tudo, vigilantes secretos e até uma viatura onde era suposto estar sempre uma companhia para o ataque. Era guardado o máximo sigilo entre os atacantes.

E certa noite a um desses rapazolas foi mostrado o esquema e acordado o assalto à fruta por volta das dez da noite. Lá estaria a viatura e ele só tinha que contar com a colaboração de quem estava dentro dela, para atacarem os dois.

Tudo combinado, tudo pontual, tudo muito em silêncio e o rapaz lá se preparou timidamente para provar a fruta e saboreá-la depois.

Só que em vez da fruta esperada saltou-lhe o dono da viatura ao caminho, disfarçado de mulher, com voz grossa como se de um homem se tratasse e o rapaz teve que fugir a sete pés com o susto que apanhou agradecendo a Deus não ter sido apanhado com a boca na botija.

Esta uma das mil e uma partidas que a malta ia fazendo uns aos outros e que hoje aqui recordo com saudades dessa época.

O visado jurou nunca mais se meter noutra, pese embora continuar a gostar muito de fruta e habituou-se a não abusar e a comer apenas fruta seleccionada, evitando assim as indigestões.

Nomes nesta história? Claro que há nomes, mas o segredo dos mesmos faz parte da ética dos amigos, dos verdadeiros amigos, pois que quase todos eles tinham telhados de vidro e ninguém queria atirar a primeira pedra.

Depois, acabavam-se as férias de verão e cada qual regressava aos seus locais de estudo.

Devo declarar que se esta história tem alguma semelhança com a realidade, é pura coincidência.

Mas é claro que, em especial no verão, não conheço ninguém que não goste de boa fruta, tenrinha, suculenta e madura e de descascá-la, saboreá-la devagarinho, para que não acabe depressa e ficarmos a salivar e a chorar por mais, como fazíamos com os queijinhos do céu e com os pastéis de nata que comprávamos na Pastelaria Primorosa…

Enfim, velhos tempos das velhas borgas.

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