SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 18 Junho 2021, 09:15

A Brotoeja

Corriam os anos de 1963 ou de 1964 e foi-nos apresentada uma proposta para participarmos num inquérito à agricultura e pecuária, que ia começar a ter lugar por todo o país, promovido pelo Instituto Nacional de Estatística e supervisionado pela Câmara Municipal.

A ideia era fazer a cobertura de todas as freguesias do concelho e tiveram que ser escolhidos igual número de colaboradores, que tinham dois meses para cumprir a tarefa.

O senhor Mário Alves funcionário da Câmara, escolheu o seu filho José Carlos Governo, que por sua vez me escolheu a mim e ao Gualter Pedro, para efectuarmos a missão em três freguesias, Zibreira, Lapas, e Ribeira Branca.

Na primeira reunião e como nenhum de nós tinha transporte para as deslocações às referidas freguesias foi decidido que o transporte seria feito no Ford Anglia do senhor Mário Alves, pai do José Governo e que seria este a conduzir a viatura. As contas da gasolina far-se-iam no fim.

Foram-nos fornecidas listagens de agricultores de todos os locais das três freguesias, fizemos um calendário e lá fomos à procura dos dados de cada um, se tinha ou não poço, quantos hectares de vinha, quantas oliveiras e figueiras, que outras árvores de fruto possuíam, quantas galinhas, galos, perus, porcos, coelhos, cabras, ovelhas, bois, vacas e até quantos burros e mulas haviam nas explorações.

A verba paga pelo INE por cada inquérito preenchido e assinado era salvo erro de 10$00 ( 5 cêntimos ) e dessa forma a importância final seria considerável para a época.

Tenho a dizer-vos que éramos uma equipa pontual, responsável e amiga e que nos aconteceram certos episódios anedóticos, dignos de sorrisos de orelha a orelha.

Em Almonda por exemplo, quando saímos do carro ainda fora da localidade, reparámos que o povo corria a esconder-se em casa e não nos abria a porta. É que alguém lhes tinha dito que “vinham aí as finanças” e toca a fugir, que isto de pagar e de morrer quanto mais tarde melhor.

Mas ainda em Almonda, estranhamente, ficou um só homem no meio do largo principal. Começou por criticar os restantes habitantes, que eram uns medricas e depois de lhe termos dito ao que íamos, de pronto se ofereceu a colaborar connosco. Esse não está cá, aqueloutro foi para o Canadá, aquele dali está há largos anos para a França, o da casa seguinte está na Alemanha, etc., etc. e por aí adiante, lá nos ajudou nalguns inquéritos e até nos indicou que um deles já tinha morrido.

Deu-nos a sede, fomos à mercearia beber um refresco e por acaso manifestámos ao merceeiro a nossa admiração pela ajuda que o tal senhor do largo nos tinha dado. O merceeiro coçou a cabeça e disse-nos que nada daquilo era verdade, que todos os questionados ali viviam e o que informou que já tinha morrido, era ele mesmo. Tal era o aldrabão.

Ainda viemos à sua procura mas…deu às de” Vila Diogo” o artista.

Na Zibreira outro pormenor delicioso : Ao entrarmos na sala de uma casa de rés de chão na rua principal, para inquirir uma senhora de idade, deparámos com uma grande bandeira portuguesa mas do tempo da Monarquia. E a senhora só nos informou de viva voz: “Aqui ainda mora a Monarquia !”.

Nas Lapas, na tasca do Rosca, outro velhote, amável, conversador, beberrão e castiço. A gente lá explicava, o homem dizia compreender mas só perguntava se no fim era preciso assinar. Ao respondermos que sim, foram vários os manguitos e dali não saía.

Alguns assistentes cheios de gozo, lá lhe diziam que nós vínhamos por bem, que éramos boa gente e pediam-lhe para colaborar. “Só se pagarem uns copos de três ! Está bem ?”.

E lá pagávamos os copos, mas no fim, lá vinha sempre o referido “toma”.

Tivemos que desistir pois não havia nada a fazer com gente deste quilate.

Por fim a nossa visita ao Casal da Pinheira. Muito bem recebidos pelo senhor Grácio, amável até não mais poder, lá nos deu os requisitos solicitados e depois levou-nos à sua adega, estilo palheiro, oferecendo-nos a cada um, um cálice da sua categorizada aguardente. Ele não bebia e a adega não tinha bancos. Olhem sentem-se aí nessas sacas de cereais, que ficam bem.

Assim foi, agradecemos, mas à noite, ao reunirmo-nos, cada um tinha mais comichão no traseiro que o outro. Que raio, não comemos nada que nos pudesse ter feito mal, o que foi, o que não foi, até que alguém mais experiente, ao ouvir a nossa história opinou: “Isso não é mais que brotoeja *. Não é muito perigoso, vai levar uns dias a passar, mas dá uma comichão levada do diabo.”

Penso que o senhor Grácio do Casal da Pinheira não o fez por mal, mas nunca mais me esqueci dele por causa daquela terrível comichão.

*- Erupção cutânea

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