SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 19:46

O Pinto Ângelo e o casal de borrachos

A minha relação com o professor Ernesto Pinto Ângelo foi reforçada no Choral Phydellius, onde durante anos pertencemos ao mesmo naipe, baixos, e onde fui seu colega na Direção a que presidiu, antes do seu exílio para os Estados Unidos da América.

Homem muito correto e que prezava a justiça e a amizade entre as pessoas, sempre me respeitou na minha atividade de columbófilo, desporto ao qual eu dedicava muitas horas da minha vida.

O Pinto Ângelo era de Montemor-o-Novo e uma vez disse-me que um seu irmão era um conceituado amador da columbofilia local e prometeu-me que lhe pediria um casal de borrachos, do melhor que ele tivesse.

Claro que logo ali me entusiasmei e eram frequentes as minhas perguntas sobre se já tinha pedido ao irmão a mercadoria para me oferecer e passados alguns meses disse-me que ia a Montemor e que já tinha falado com o mano para nesse dia me trazer o casal de pombinhos prometidos. Mais me disse que eram filhos do seu melhor casal de reprodutores e que salvo erro eram pigarços.

Combinou-se o dia, a hora e o local onde eu havia de esperar por ele e seria aí por volta das duas da tarde, no Largo da Botica.

Ali me pus à espera do Pinto Ângelo, que viria na sua motoreta, veículo que nessa altura utilizava.

Passaram-se as duas, as três, as quatro da tarde e só por volta das cinco horas chegou o professor e estacionou junto do Café Central.

Cumprimentou-me, começou a mascar, a ter dificuldades em falar e a custo lá me disse, quando lhe perguntei pelos pombos, “olha tenho uma triste história para te dar!”.

E lá contou que ao passar pela Raposa, quis ir cumprimentar um amigo antigo, estacionou a motoreta à entrada do seu quintal, com o cestinho com os pombos e lá matou saudades do seu amigo e da sua mulher. Palavra puxa palavra, diziam-me que devia ter avisado mas que tinha que ali almoçar. A esposa levou largo tempo a preparar a comida, mas iam-se bebendo uns copos e conversando sobre coisas antigas enquanto se esperava, até que lá chegou o pitéu, um belo petisco, um guisado de aves com arroz e ervilhas que de facto estava muito saboroso.

Só que, contava o professor, o pior foi quando à despedida, verifiquei que não havia nada dentro do cesto dos pombos. A senhora cozinhou os borrachinhos e se eles estavam bons…

E só aí eu reparei naquela bronca, mas como o mal estava feito até me ri da partida que me fizeram. Ainda hoje estou para saber se foi mesmo assim ou se foi uma história inventada pelo meu amigo, mas fosse como fosse, eu enfiei o barrete e tive que aceitar a situação.

Lembrei-me logo do meu tio João Duarte, por sinal amigo do professor, que sempre que me via nos pombos me dizia: “Isso com um arrozinho de ervilhas vinha mesmo a calhar!”. E foi verdade para meu desgosto.

Mas o certo é que a columbofilia é uma paixão e meu tio João Duarte, anos mais tarde apanhou a “doença” com o filho João Carlos e de que maneira…

E depois era eu quem perguntava a brincar: “ Pombos ? só com um arrozinho de ervilhas”!.


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