SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 22 Junho 2021, 00:17

AS FÉRIAS EM PARIS (1979)

“Homenagem à nossa família de emigrantes”

Acedendo a um convite já antigo dos tios da minha mulher, Alfredo e Perpétua Cabeleira, resolvemos rumar em férias até Paris, nesse já longínquo mas inesquecível ano de 1979.

Viajámos com o meu filho mais velho, na altura ainda com cinco anos e fizemo-lo de comboio, mais propriamente no Sud Express, em carruagem cama entrando no Entroncamento e chegando a Paris.

Confesso que nunca tinha saído de Portugal e ao chegar a Fuentes de Oñoro, Espanha, saí do comboio só para ter o prazer de pisar terras espanholas.

Depois uma longa viagem, a bela travessia dos Pirenéus e aí está a fronteira de Irun (França). Revista às bagagens, mudança de carruagem e de máquina, pois a bitola a partir daí passava a ser internacional.

Passadas algumas horas, a chegada a Austerlitz e à nossa espera estava o nosso primo António Nuno Cabeleira (recentemente agraciado com o título de Comendador de Mérito pelo senhor Presidente da República, por serviços prestados à comunidade portuguesa no Consulado de Portugal em Paris, onde chegou a vice-cônsul), que nos levou para casa dos seus pais, situada no Vesinet, uma casa da portaria de um belo palácio. Antes tivemos que ir ver se a torre Eiffel estava no sítio ou se tinha sido desmantelada e vendida para a sucata, como o primo Pedro Coelho tinha informado o meu José Manuel de ter lido na imprensa.

Olhámos a majestosidade da Torre Eiffel e o meu filho à chegada a casa dos tios, teve logo que telefonar à avó Julieta e pediu-lhe para dizer ao primo Pedro que uma boa sucata era ele.

Os nossos tios esmeraram-se na recepção e logo na primeira noite tive o prazer de ir a casa do tio Sidónio e da tia Zélia para ver na televisão a cores um jogo para a Taça dos Campeões Europeus, precisamente o Nantes-Benfica. O meu primo Jean René, marido da Maria do Carmo Cabeleira (Micá) e bretão como os de Nantes, bem como o Victor filho do Sidónio e ele próprio, lá me avisavam que o Nantes ia vencer com facilidade, etecetra e tal.

Eu como sportinguista ali era português e torcia pelo Benfica e não me arrependi, pois o Benfica marcou depressa e estava à frente no marcador. Só que as ameaças continuavam e era certo que os amarelos do Nantes iriam dar a volta ao resultado.

Foi nessa altura que vejo o grande Chalana receber a bola no meio campo do Benfica do lado esquerdo, passar o meio campo e começar a galgar em linha recta na direcção da baliza do Nantes. Ia fintando um e dois e três e todos os que lhe queriam tirar a bola e chegado à entrada da área rematou e fez golo, o segundo golo do Banfica, fazendo salvo erro o resultado final.

Ah grande Chalana que alegria enorme me deste no dia da minha chegada a França e na minha estreia a ver TV a cores. Depois foi uma estadia em cheio, porque os primos e os tios se esmeravam em acolher-nos como príncipes.

Paris é de facto uma grande metrópole e para nós era um regalo para a vista todos aqueles monumentos, o fervilhar de movimento, as baguetes de pão debaixo do braço, as boinas pretas bem típicas dos franceses de final da guerra, o Sena e as suas maravilhosas pontes, o vício no jogo das corridas de cavalos, a Notre Dame e l’Ile de France, os Campos Elísios, o Arco do Triunfo, a Bastilha, o Quartier Latin de Brel, o museu Pompidou, a já referida Torre Eiffel, os bateaux mouche, o Moulin Rouge, o espectáculo e as belas bailarinas, a basílica do Sacré Coeur, o jardim zoológico de Thoiry nos arredores de Paris e a célebre Place de Montmartre com centenas de pintores e de artistas, com os seus bares e cafés bem típicos. No fim de tudo a luz, a inigualável luz de Paris, e a boa comida francesa e italiana, que os meus primos, à vez, nos fizeram questão de proporcionar.

Nem tempo houve para visitar o Museu do Louvre mas isso ficou para outras oportunidades mais recentes. Quero ainda destacar que os meus tios Alfredo e Perpétua (infelizmente já falecida) recebiam com frequência nos jardins do palácio do Vesinet de que eram zeladores, dezenas de amigos portugueses que reunidos numa vasta mesa ao ar livre, saboreavam comida tradicional portuguesa, bebiam do bom vinho português e dessa forma conviviam e matavam saudades do nosso Portugal. E nós tivemos o prazer de participar em pelo menos dois desses encontros.

Foram dezanove dias de férias intensamente vividos e passados tantos anos ainda hoje são inesquecíveis e dignos do nosso agradecimento a todos, aos tios Alfredo e Perpétua, Sidónio e Zélia, e aos primos Micá e Jean Renée, António Nuno e Regina, Dulce, Vitor, Carminda, Ana e Amélia.

O tempo foi tão bem aproveitado que ainda proporcionou um inesquecível jantar de convívio em casa da amiga de infância Júlia Natália, uma torrejana da Renova radicada em Paris há largos anos.

E termino, antes do embarque na estação de Austerliz, recordando aquela corrida louca no automóvel da prima Dulce a altas velocidades por atalhos que felizmente ela conhecia, para nos livrar dos engarrafamentos e podermos chegar a horas ao comboio.

E chegámos a tempo, sem muito tempo para beijos e abraços de despedida mas sempre com tempo para reviver essas felizes memórias que convosco vivemos.

Só vos deixamos um eterno obrigado.

One thought on “AS FÉRIAS EM PARIS (1979)

  1. Caro amigo:
    Foi práticamente um milagre ter encontrado este resumo que faz de uma visita a Paris e falando de uma família que conheci e ficamos muito ,muito
    amigos,principalmente do Nuno,da Micá da Dulce,Regina e da Júlia Natália.Esta amizade passou-se no ano de 1970,já lá vão 44 anos.Eu fui funcionário na embaichada da BIRMANIA.Em 1972 regressei a Portugal para prestar o serviço militar onde prestei serviço como oficial (alferes)em Angola.Desde esse meu regresso não mais tive contato com eles,gostava que me envia-se os cntatos.Obrigado

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