SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 18 Junho 2021, 10:23

“Pombos Correios – Concurso de Almansa – Só enviei dois mas ganhei com avanço”

O desporto dos pombos correios é uma paixão tremenda para aqueles que, como eu, apanharam o “bichinho” desde tenra idade.

Os anos passam, os conhecimentos aumentam, o nível dos voadores melhora e ano após ano sucedem-se as experiências, as alegrias, as frustrações, sendo mais as desilusões do que as alegrias, facto natural dado que em cada prova só pode ganhar um.

Nunca tive muitos pombos ao longo dos largos anos que concorri sozinho, o mesmo não acontecendo quando se tratava de sociedades não tanto em “Pinheiro & Bué” mas bem mais nos “Asas de Valverde” em que era eu, o Valdemar o Albano e o Bernardino, gente com aspirações e aí o número de pombos e as despesas aumentavam com naturalidade. Esta sociedade chegou a marcar pontos a nível local e mesmo a nível distrital.

Entretanto a dona do terreno em Valverde necessitou dele e nós respeitando o acordo verbal existente, tivemos que sair dali com o pombal e com os pombos, que na sua maioria foram para a reprodução e os restantes foram aduzidos a outros pombais.

Entretanto mudei para a minha casa actual e os primeiros habitantes foram cerca de 20 borrachos, oferecidos na sua maioria pelo Augusto Bernardino o que era sinónimo de boa qualidade. O Júlio Cracóvio deu-me também um borracho, o Vitor Alves de Almonda também me deu outro e recomecei desta maneira.

Com pombos de qualidade, os resultados, em especial no segundo ano, começaram a ser bastante bons para o que estava habituado. Dos borrachos do Bernardino nasceram alguns filhos que foram os meus campeões, mas como em tudo na vida tudo o que nasce morre e ao perder os melhores apontei para a desistência, que foi o melhor que fiz. Passei a ter tempo para a família, para os amigos e para outras actividades e como que saí da prisão que é ser columbófilo a sério, que requer muito trabalho, muita dedicação, muito tempo e algum dinheiro.

Mas não acabei sem ter uma grande alegria. A quota máxima de envio por concorrente para as provas de fundo, mais de 500 Kms. era na altura de  15 pombos.

Eu já estava na curva descendente e a opção era não enviar muitos pombos a fundo, pois ao perdê-los e é fácil acontecer com provas de 600, 700 e 800 Kms. e com a meteorologia por vezes a ser adversa, ficaria “depenado” de todo.

E na prova de Almansa, resolvi enviar apenas dois pombos, quando a maioria enviou 10 ou 15 cada um.

No encestamento foi um gozo generalizado sobretudo por parte do meu amigo Henrique Cepo (o Aguardente) que logo ali deu mais uma entrevista: “Então oh amigo Jorge, você não se envergonha de ter pombos há tantos anos e só enviar dois a concurso?”.

Lembro-me que quem recebia os pombos era o malogrado Carlos Mateus, que conhecia o macho azul que enviei, filho do “Canito” do Bernardino e a sua fêmea “Malhada” razoável no fundo.

E o Mateus volta-se para o Henrique e diz-lhe: “Tomaras tu ter algum à frente destes dois! Depois falaremos.”

Dois dias depois foi a prova e eu, perto das 14,30 horas, como era meu hábito, telefonei para o Maurício, campeão da Meia Via a perguntar-lhe qual a sua previsão para a hora da chegada. De imediato me desligou o telefone, só me dizendo, “desculpa está o meu primeiro a chegar e olha vai um pombo na direcção de Torres Novas”.

Voltei-me para a Meia Via e para lá olhei à espera de algum milagre.

De repente vejo um ponto no céu, cada vez mais a aproximar-se, cada vez maior, era um pombo, vinha na minha direcção, era meu, era o meu Canito a bater na prancha e a entrar. Contente e ambicioso, logo pensei cá para mim: “Isto era bom era vir já aí a Malhada” e fechava-se logo a loja.

Ninguém está contente com o que tem, mas o que é certo é que cerca de vinte minutos depois, olhando para o lado de Riachos, vi uma asa branca a voar, cada vez mais perto, quase rente ao chão dos campos e a aterrar calmamente na prancha e a entrar cansada mas feliz porque a fechei logo no ninho com o seu parceiro. Pus-lhes comida e bebida fresca e pus o pombal na escuridão, para que o descanso fosse maior.

Depois, fechei o pombal e fui até ao Mateus. Estavam lá também o Bernardino e outros columbófilos. Só lhes disse boa tarde e “Já me vieram todos”. O Mateus ainda não tinha nenhum.

Ao ouvirem a novidade, arrancaram para os seus pombais que foi uma pressa. À noite, beberam-se uns copos brindando ao êxito e o Henrique Cepo ficou respeitosamente calado perante a realidade.

Foi um dia de vitória nos pombos, coisa rara de acontecer porque domingo a domingo só um pode vencer.

E foi um feito, falado na região, de um tipo ter enviado apenas dois pombos e ter tirado o 1º lugar com quinze minutos de avanço.

De referir que a fêmea, a minha Malhada, obteve o 9º lugar se não me falha a memória.

Se todos os dias de um columbófilo fossem iguais ao que vos contei, jamais me teria separado dos pombos.

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