SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 15 Junho 2021, 17:10

O mundo é pequeno – Rui Pinheiro (guarda redes)

Ao longo das nossas vidas todos temos algumas situações bastante curiosas, que nos fazem pensar como é possível estarem a suceder-nos, e elas são mais frequentes do que pensamos.

Quase todos nós temos situações em que dizemos para nós próprios que “o mundo é pequeno” porque encontramos pessoas que nunca imaginávamos poder estar ali na nossa presença naquele local e aquela hora.

Uma dessas situações sucedeu-me há poucas semanas e passo a descrevê-la.

Muitas pessoas da minha idade ou um pouco mais velhas e que ligam alguma coisa ao futebol cá da terra, devem recordar-se bem do Rui, que foi um antigo guarda redes do Clube Desportivo de Torres Novas vindo do Sintrense e que fez parte de uma das melhores equipas do Torres Novas no tempo do Hugo Sarmento.

O Rui fez parte da equipa do Torres Novas que ficou em segundo lugar na segunda divisão nacional, no ano em que foi o União de Tomar a subir à primeira divisão.

Era ele quem orientava a defesa torrejana ali no Quintal do Zé Maria e até dava gosto vê-lo actuar em grande forma a defender as nossas cores.

Mais tarde voltou ao Desportivo, já se jogava no Estádio Dr. António Alves Vieira mas a sua forma já não era a do jovem Rui que anteriormente

aqui jogou. Também não tinha a ajuda do Valdemar, do Adelino, dos irmãos Bruno, do Carvalho, do Hugo, do Borges e do Maia, para além de outros também famosos atletas torrejanos de então.

Os anos passaram e muito mais tarde tive conhecimento, através do amigo Álvaro Mendes, que tinha estado com um pintor associado do GART, Grupo de Amigos da Arte, no evento “Pintar Atouguia da Baleia” e até me disse mais que para além de bom pintor era também um bom fadista amador da região de Vila Franca de Xira e foi ele que lhe contou que tinha sido guarda-redes do Torres Novas e que tinha gratas recordações da nossa terra.

No ano seguinte fui com minha mulher pintar em Atouguia da Baleia, mas o Rui não estava para pena minha.

Mais tarde a minha mulher fez uma exposição de pintura na Livraria ao Pé das Letras na Ericeira e no final da mesma, no Livro de Visitas, foi com agrado que vi os seus comentários favoráveis à “colega” pintora e referiu os laços de amizade e saudade da terra e das gentes torrejanas, onde viveu belos dias da sua vida como desportista e ainda conta com muitos amigos.

No ano passado, fomos com a gente do GART, pintar ao Sabugal, mais propriamente à Malcata.

Tínhamos esperanças que o Rui Pinheiro estivesse presente mas mais uma vez não foi possível estar. O reencontro estava a ser difícil.

Acontece que há semanas, numa quarta feira de fados no Restaurante Manuel Francisco, qual não foi a minha surpresa quando o viola Rui Girão me informou que o João Serra e Moura exímio guitarrista de fado da Ericeira, tinha vindo à boleia com um amigo seu, Rui Pinheiro, porque tinha o carro avariado.

Confesso que distraído não liguei ao nome, só perguntei se cantava o fado ao que o Girão me respondeu afirmativamente.

Sentei-me para um copo na mesa dos fadistas amadores, a casa estava à cunha e muito animada e por sinal sentei-me ao lado do tal Rui Pinheiro da Ericeira.

Com mais atenção olhei para a sua figura e reconheci-o. Dei-me a conhecer e foi um desfiar de nomes e situações de colegas e de treinadores, de alguns dirigentes como o Joaquim Pedro e senti que o Rui nunca mais deixou de ter Torres Novas no coração. Relembrou muitos colegas em especial o Carvalho e o Valdemar que já partiram para a eternidade.

Foi ele quem abriu a noite de fados como é timbre ser um homem a começar e cantou dois belos e castiços fados que encheram as medidas a quem o escutou.

Apresentei-o a um amigo torrejano e doente pelo Desportivo que o reconheceu e a conversa entre ambos durou até às tantas no intervalo dos fados.

Para o Rui foi um prazer que me pediu que transmitisse aos amigos que ainda dele se lembrem. Para a minha mulher um cumprimento e a certeza que se hão-de encontrar numa próxima pintura ao vivo.

Para mim foi bom reviver com saudade e com alguma emoção um dos meus ídolos que jogaram no nosso Desportivo.

O desporto, a pintura e os fados, cruzaram as nossas vidas. O mundo é na verdade muito pequeno e ainda bem que assim é.

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados