SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 16 Junho 2021, 11:35

Rua dos Ferreiros – A loja dos meus pais -Mercearias e Solas e Cabedais

O meu pai explorou uma loja de mercearias e de solas e cabedais na Rua dos Ferreiros, no rés do chão da casa onde morou muitos anos o professor Domingos de Oliveira.

Era uma loja relativamente espaçosa, com um armazém bastante grande por detrás das prateleiras, onde eram guardadas as solas, courpons e os cabedais, carneiras, calfes e peles para sapataria fina.

Ali também eram guardados todos os artigos necessários aos sapateiros de então, pomadas, lixas, tintas, sebo, linhas e colas, atacadores, palmilhas e fôrmas, pregos de todos os tamanhos, cardas, facas e torquezes, grozas, alicates, martelos, formões, sovelas e escovas de todos os tamanhos e gostos.

Depois havia a zona do balcão onde se atendiam os sapateiros, muitos deles vindos de longe, desde Mação, Gaviãozinho, Golegã, Azinhaga, Pombalinho, Lapas, Pedrógão, Alqueidão e até de Alcanena.

Os clientes de mercearias eram atendidos noutra parte do balcão e também vinha gente das aldeias, em especial em dias de mercado semanal, na época às segundas feiras, não esquecendo os clientes da vizinhança dos bairros de Valverde e de Santiago.

As lojas de mercearias e miudezas, tais como as farmácias e as barbearias eram pontos de encontro das pessoas e de conversas e na loja do meu pai havia umas tulhas de cereais que serviam mesmo bem para os clientes se sentarem e porem a conversa em dia.

Feitas as compras a maioria pagava mas havia sempre alguém que mandava “assentar” no livro dos “esquecidos” e era uma carga de trabalhos para reaver a massaroca.

E muitas cá o rapaz lá ia a pé, ao bairro de São Domingos ou às Tufeiras e ao Vale, pedir o pagamentos dos “atrasados” e duma das vezes recordo-me de ouvir a cliente dizer-me: “É preciso ter lata. Então quando fui à loja o teu pai não me quis vender bacalhau, que o tinha lá que eu bem vi, e agora quer que eu lhe pague o atrasado.” É o pagas !…” e lá voltava eu, com o rabito entre as pernas sem nenhum dinheiro para dar ao meu pai.

E confesso que tive ainda a sorte de nunca nenhum caloteiro me bater.

Era no tempo do racionamento do bacalhau e pelos vistos também de algumas contas, que nunca mais eram pagas. Como podem compreender, a crise efectiva já vem de há mais de cinquenta anos, pois desde sempre houve calotes e vidas largas, com passo maior que a perna e nesses tempos havia muitos “pipis da tabela” como lhes chamavam, que queriam era festas, mulheres, praias e descanso, que isso de pagar e de trabalhar não era com eles.

E o meu pai José Pinheiro lá teria a sua razão para não aviar o bacalhau à tal figurona. Pudera, era para ficar a dever com o resto da mercearia e desta forma o prejuízo sempre era menor.

O que sempre nos valeu foi haver gente séria e cumpridora, felizmente em maior percentagem que os tais “esquecidos”.

Agora ao calote chama-se “mal parado” e aos atrasos “incumprimentos” ou seja tudo coisas de gente fina, de todos os tempos e gerações, muitos deles a servirem-se do dinheirinho dos pais, familiares ou amigos, do padeiro e do merceeiro.

A minha mãe Carminda ocupava-se mais da mercearia se bem que dava um precioso auxílio a meu pai, pois era ajuntadeira de sapatos, trabalho que executava com grande precisão e perfeição e dessa forma angariava muitos sapateiros que apreciavam a qualidade do seu trabalho.

Ser ajuntadeira era cozer à máquina de costura as várias partes de um sapato de homem ou de senhora, botas, botins ou bota alta, que os sapateiros desenhavam e cortavam na pele que o meu pai lhes fornecia.            Era um trabalho duro e esforçado, mas era feito com amor e dessa forma tudo acabava em bem.

Mas difícil, difícil, era cortar com uma faca de sapateiro, grandes ou pequenos pedaços de sola de uma peça maior, os tais “courpons”, alguns de espessura de mais de um centímetro e rijos como o ferro.

Pois o meu pai lá os cortava e enrolava para os clientes levarem ou para seguirem  via Claras para os destinos respectivos. E a mim só me pedia para pôr o dedo ali no nó do cordel, para ele poder apertá-lo bem.

Eu até me arrepiava e como já era de outra geração e muito alimentado a leitinho e a bifes, admirava a força do meu pai que nessas alturas sempre me pareceu um gigante de força e de trabalho.

E tudo se transforma nesta vida. Sapateiros e ajuntadeiras já quase não existem e a gente que vinha ao mercado e à mercearia à vila às segundas feiras, que trazia o seu burro com os alforges ou a sua carroça, prendendo as alimárias em argolas existentes nas paredes da zona antiga de Torres Novas foram perdendo esse hábito e também elas já vão normalmente aviar-se às grandes superfícies. E como aí não há livro de “assentos”só chego à conclusão que afinal está tudo rico.

As argolas ainda as vemos por aí nas paredes de algumas ruas,  mas os burros e as carroças já são quase coisas do nosso imaginário.

Só restam nas poucas mercearias que existem, a amabilidade dos merceeiros e dos seus empregados e o tal “Livrinho dos incumprimentos”, muitas vezes o “Livro dos Calotes Esquecidos”,  que tantos merceeiros ajudaram a arruinar.

Agora diz-se à boca cheia que a culpa é da crise.

E noutros tempos, de quem seria a culpa ?

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