SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 22 Junho 2021, 20:16

O hastear da bandeira

Isto de estar de serviço num quartel ao domingo era coisa que todos os oficiais, sargentos e praças procuravam evitar, pois ficar longe das famílias e das suas terras custava muito.

Ao longo da semana procuravam efectuar trocas com outros colegas de patente, algumas delas a troco de uns escudos e o compromisso de “pagar o serviço” em data logo ali combinada mas a um dia de semana.

Era Domingo, entrei de serviço de Amanuense de Dia e não me apercebi que o segundo sargento que tinha entrado de serviço como Sargento de Dia se tinha sentido mal na apresentação, pediu para ir a um médico civil, lá foi para casa e nesse dia não mais voltou. Na Segunda Feira lá estava fresquinho que nem uma alface, sinal de que a “doença” não tinha sido grave.

Malandrice, como diria o Raul Solnado.

Acontece que o oficial de dia tinha que arranjar um sargento, o mais antigo que estivésse na unidade, e verificou-se que só lá estava eu e de imediato fui “investido” ou “cravado” para Sargento de Dia.

Só não me lembrava que era no domingo o dia de se hastear a bandeira nacional à porta de armas, com cerimónia e tudo, formatura, clarins, ordem unida e a inevitável bandeira.

E aquilo tinha público a assistir e como já era uma cerimónia habitual ainda eram bastantes a apreciar.

Lá veio o primeiro-cabo Costa, um velho amigo algarvio perguntar-me se podia fazer avançar a formatura. Só lhe respondi que ele podia fazer o que quisésse, mas eu é que não fazia a mínima ideia de como a cerimónia se devia desenrolar e logo ali combinei que ele seria o chefe de cerimónias, sempre a meu lado, e seria ele a dar as ordens de “firme”, “sentido”,  “ombro arma”, “apresentar arma”, “toque de clarim à bandeira”, hastear da mesma e as ordens contrárias até ao “descansar” ,“à vontade”“e destroçar”.

Eu só mexia os lábios a disfarçar que quem dava as ordens era eu… O resto era com o cabo Costa. A formatura ria-se a bom rir, o público apercebendo-se da minha aflição também sorria a bandeiras despregadas mas o 1ºcabo Costa esteve sempre muito bem, não se desmanchou, e o único que estava branco como a cal da parede e que até pagava para que aquilo acabasse depressa era eu.

Tudo se passou e eu respirei de alívio e agradeci à rapaziada. Só que de repente me lembrei que em final do dia teria de haver a cerimónia do arrear da bandeira, com idênticas formalidades.

O 1º cabo bem tentou treinar-me as ordens e os procedimentos mas logo ali se combinou que a coisa seria feita em moldes iguais aos da manhã, pois eu era já sargento velho e já tinha muitas dificuldades em “aprender línguas”…

Assim foi e passei por mais esta história anedótica que aqui quero recordar para provar que as regras na tropa não eram e continuam a não ser nada fáceis e existem normas e rigor em quase todos os procedimentos.

Ou não fosse a tropa uma das escolas da nossa vida. Para lá é que iam os homens… Mas como isto agora está tudo mudado, é também para lá que vão as mulheres, as chamadas mulheres de armas.

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