SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 22 Junho 2021, 20:12

Quando o Oficial de Dia me veio pôr a casa

Era um Domingo de Setembro, um belo dia de céu limpo e sol quente, daqueles em que apetecia passear com a família, nesse bom ano de 1971.

Eu tinha casado em Agosto, estava ainda na tropa aqui em Torres Novas e por azar estava de serviço nesse dia, Amanuense de Dia, que é como quem diz era estar ali de serviço e nada fazer.

Logo pela manhã, após a apresentação ao oficial de dia e numa sua visita ao bar dos sargentos, pedi-lhe se podia ir para casa ter com a mulher, que lhe deixava o meu telefone para qualquer caso de necessidade, etc., etc.

O oficial de dia era nem mais nem menos que o Alferes Chico Côco Mendes, um alentejano de Montemor, um bom amigo nas noites do Café Oásis e forcado no Grupo de Forcados Amadores de Montemor-o-Novo.

Ao meu pedido e embora de forma distraída, disse-me que não, que quem estava de serviço tinha que o cumprir.

Embora colega e amigo, tropa era tropa, ordens eram ordens e ali fiquei eu a derreter de calor, todo o santo dia.

Ainda pela manhã vim para a varanda que havia junto às camaratas e davam para as Tufeiras, para ver chegar os pombos do João Farinha Cordeiro, do Casquilha e do Vitor Alves, estes com pombal na Vila Pinho.

Dali assisti à chegada dos pombos, pois à espera dos meus estava o meu primo João Carlos Lince a quem eu tinha pegado a doença.

Depois do almoço na messe de Sargentos, uma bica e umas cartadas seguidas de alguns programas de televisão na Sala e as horas lá se passaram, até ao jantar, também na messe.

E foi aí que me reencontrei com o Chico Mendes, o tal oficial de dia, que ali foi jantar e conviver. Ao ver-me, estranhou a minha presença e disse: “Então pá, ainda aí estás ou voltaste ao quartel buscar alguma coisa?”. Respondi-lhe que não me tinha ido embora porque respeitei a sua recusa para eu sair como lhe tinha pedido.

O Chico Mendes era bom rapaz, disse-me que “estava e reinar comigo”, pediu-me mil desculpas e fez questão de se oferecer para me ir pôr a casa no seu Fiat 600, um topo de gama.

E assim foi, com arma e braçadeira de Oficial de Dia, sem cuidar da sua substituição, ali viemos nós no célebre Fiat avenida fora direito ao centro da vila, não sem que antes tivéssemos ido beber uma bica e um brandy, ao Café Viela.

O Chico era um rapaz extremamente alto e corpulento e porque estávamos fardados, num Domingo e àquela hora, demos um pouco nas vistas de quem nos via.

Sentados à mesa, alguém à civil de uma mesa contígua entrou na conversa e disparou: “ O senhor alferes é o Oficial de Dia do GACA 2 não é ? – É que ainda tem o braçal e a arma…”.

“Arre gaita”, disse-me em voz baixa o Alferes, “é o Comandante da Unidade…à civil. Mas tem calma, não vai haver azar”. Levantou-se, fez uma valente continência e explicou a razão de ali estar e que estava em vias de me pôr em casa, para repor uma injustiça feita logo de manhã.

O Comandante sorriu e só pediu que o grande Chico Mendes lhe fizesse um favor: “ O alferes é capaz de me acompanhar à Chaminé, para lá bebermos outro copo?”.

Logo ali prescindi do resto da boleia, despedi-me dos superiores e lá fui à minha vida…

A boa surpresa estava afinal reservada ao Chico Côco Mendes, que teve que escoltar o seu superior para ver umas miúdas na Chaminé e beber mais uns copos.

E logo ele que não gostava nada dessas andanças.

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