SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Junho 2021, 14:22

Eleições em 1969 – A estranha Matemática

Estava eu na tropa aqui em Torres Novas, no GACA 2, quando ocorreram as eleições para a Assembleia Nacional, no tempo da governação de Marcelo Caetano, em que se pensava que o regime estaria a abrir a oportunidade da liberdade de expressão e de reunião, afinal puro engano como se veio a verificar durante o período de Campanha Eleitoral, como na manipulação dos resultados, na viciação dos cadernos eleitorais em que um mesmo eleitor votava em várias mesas do concelho, pois para tal era arregimentado pelos homens da “situação”.

Durante a Campanha, todas as liberdades eram concedidas ao partido do regime, a União Nacional, sendo o mesmo restringido aos partidos da oposição democrática em especial ao MDP-CDE, que era o mais apoiado por todos os militantes de esquerda e por todos aqueles e eram imensos, que de alguma forma não suportavam a mordaça que nos era imposta pelos senhores da terra, a lei da rolha, a vida de desconfiança permanente entre as pessoas, nos locais de trabalho, nos cafés, nas igrejas, nas colectividades e até dentro de muitas famílias. A Pide estava infelizmente sempre presente e ninguém podia estar a conversar na rua depois da meia noite, que era sempre mandado dispersar, com o slogan : “Não são permitidos ajuntamentos de mais de dois a andar parados”… Arre gaita que era de mais!.

Na televisão, havia um só canal e a Campanha era feita mais a preto que a branco, à medida das necessidades do partido único, o do poder.

Era o tempo em que, no Coral Phydellius, presidido pelo saudoso Ernesto Pinto Ângelo, havia a partir da meia noite um polícia fardado à porta da Sede para mandar terminar os ensaios, tal foi a pena decretada pelo Governo, só porque o Coral tinha cantado no Teatro Garcia de Resende em Évora, “Os homens que vão prá guerra, vão prá guerra, vão morrer…”poema de José Gomes Ferreira musicado por Fernando Lopes Graça. Não se podiam dizer as verdades, nem cantá-las como se via.

A liberdade era tão grande que alguém que quisesse votar na oposição, tinha por portas e travessas e sob pena de ser “apanhado”, de arranjar um boletim de voto, pois os votos eram nominais e só eram distribuídos os boletins de voto do lado do Governo.

Os votos nos outros não existiam. Tal era a trapaça.

Mas, por falar em trapaça volto então ao Gaca 2, à tropa, onde havia pelos menos um“herói” que distribuía votos à malta que quisesse votar na oposição : era o Furriel Fernandes, mais conhecido pelo “Pai da Guerra”. Um homem de Barcelos que voltou a Torres Novas anos e anos a fio por motivos profissionais e que sempre se encontrou com os seus amigos de outrora.

Eu e outros colegas já tínhamos o nosso voto e era só esperar o dia da eleição.

Era Domingo e todos os quartéis estavam de Prevenção contra algum ataque terrorista contra o regime.

No Gaca 2 no entanto, foi pedida autorização para num jipe, se deslocarem à Mesa de voto, na Câmara Municipal, seis elementos.

A autorização chegou e lá fomos, fardados a rigor, exercer o nosso direito cívico.

Dirigi-me a uma mesa onde se confirmou que estava inscrito. Na mesma mesa e na fiscalização, estavam entre outros, dois lutadores antifascistas de sempre, Faustino Bretes e João José Lopes (Espanhol). Pensei para mim que os dois comigo já seríamos três… Para começar já não era máu.

No final do dia, soubemos os resultados dessa mesa e o MDP-CDE obteve 2 votos apenas.

Que ladroíce pomposamente disfarçada. Que manipulação terrível.

Que instrumentalização de alguns lacaios para se ganhar, fosse a que custo fosse mesmo anulando os votos da oposição.

Comemos e calámos. Fiquei a saber que dois e um não foram três… e foram apenas…dois, e era esta a Matemática que nos forneciam. Para o lado deles, se calhar dois e um até poderiam ser dez…se necessário fosse.

A pouco e pouco começava a descobrir-se ao fundo uma ténue luz de esperança que enfim chegou com o 25 de Abril de 1974.

Mas parece-me que passados trinta e sete anos, ainda há muita gente que continua a não querer perceber nada de matemática.

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