SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 16 Junho 2021, 02:03

Carlos Paião – Recordações de um amigo

Toda a gente conhece e gosta de Carlos Paião, os mais velhos por se habituarem a ouvir as suas bonitas canções, os jovens por escutarem a adoptarem os seus trabalhos de que muito gostam, mantendo-o felizmente vivo na actualidade musical, a ele que tão cedo partiu para o outro mundo.

Para além de médico de profissão ele era um excelente músico e letrista, um enorme cantor cheio de uma graça inteligente e sobretudo um bom amigo, pois encontrei-me duas ou três vezes com ele o que para mim foi um prazer quase tão grande como a tristeza e o choque que senti aquando do acidente em que acabou.

Escrevia canções com uma facilidade espantosa e foram inúmeros os cantores que gravaram músicas suas, em especial Amália Rodrigues e Cândida Branca Flor.

A primeira vez que tive o gosto de o ver actuar ao vivo foi no Cinema Lido na Amadora, era eu solista com o Zé Manuel Cunha e a Maria Adelaide na Orquestra Típica Scalabitana que nessa noite também ali actuou.

Parece que estou a reviver a cena. O Zé Manuel Cunha ao ouvir a voz forte e colocada do Paião, só me dizia : “Quem é que tem reduzido a potência e a qualidade da voz deste gajo, quer na rádio quer na televisão? “.

Na realidade a sua voz bem timbrada era imensamente superior ao que se ouvia na rádio e na televisão, mas a técnica tem destas coisas, quando se não entra com dinheiro adiantado, esconde-se a qualidade e já está. Isto era assim naquele tempo e infelizmente assim continua, se bem que hoje a diversidade de meios e de estúdios é muito maior e melhor, e hoje em dia uma gravação é fácil de fazer pois no nosso tempo, gravar um disco em vinil era o cabo dos trabalhos. Nm disco pequeno com duas músicas apenas, uma delas poderia ser indicada por nós, mas a outra era imposta pela editora, e é assim se quiser, sem alternativa.

Mas ao Carlos Paião ninguém conseguia calar a sua categoria, a sua arte de bem comunicar, a sua música que entrava no ouvido às primeiras e sobretudo os seus poemas que eram simples, sem rodeios, sendo para mim um artista único por cantar a linguagem do povo. E o povo aclamava-o e na sua simplicidade, o povo adoptou-o como seu ídolo.

Ali no Lido da Amadora eu ofereci-lhe o meu EP, com as canções “Viagem no Meu País” com letra de António Lúcio Vieira e música de João Maria Julião e “Contas são Contas” do maestro José Santos Rosa, esta a tal canção imposta pela editora. Nesse aspecto tive sorte pois era uma canção de qualidade.

Ao oferecer o disco disse-lhe que fizesse o favor de o ouvir e depois podia parti-lo à vontade. Mas o Paião era invulgar e passado pouco tempo escreveu-me uma carta informando-me que tinha gostado do meu disco, que “tomara ele ter uns graves como eu tinha” e que o disco passava a fazer parte da sua discografia, pois nunca o iria partir…

Nunca cheguei a ter a sorte de cantar um ou dois inéditos seus, pois disse-me que eram já tantos os artistas para quem escrevia que não me podia dar esse gosto. Indicou-me no entanto outro compositor a quem nunca recorri.

Por outra vez no Carnaval de Lagos em que o “Conjunto Nova Augusta” participou, voltámos a encontrar-nos. Já tínhamos feito dois dos três bailes do contrato e no terceiro eu perdi a voz completamente. Estava preocupado em cantar todo o baile e participar com o Zé Cunha e a Adelaide, numa parte de variedades que tínhamos no programa.

Eu estava atarantado quando recorri ao Carlos Paião, disse-lhe o que me estava a suceder e em resposta ouvi “ vem daí, tomas duas destas pastilhas, que a voz vai voltar e dá-te para cantar cerca de uma hora…”.

Foi dito e feito e lá cantei as três canções nas variedades. Feliz e contente,

agradeci-lhe e pedi-lhe mais uma pastilha para o resto do baile…”Eles que cantem até ao fim do baile, que tu já destes o litro por hoje”…

No Verão seguinte, o Carlos Paião esteve nas Festas da cidade, com um magnífico espectáculo na Praça 5 de Outubro, que foi um enorme êxito.

Entretanto, aproximei-me do palco para o cumprimentar e de cima do palco exclamou: “Olha o tipo das pastilhas para a voz… Estás porreiro ?”

Um homem simples, um grande artista que nunca morrerá, pois a sua música, os seus poemas e a sua inegualável voz estarão sempre vivas nos corações e na memória de um povo.

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados