SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Junho 2021, 13:38

O Chibanga, o Bigodes e Mário Leão

Em meados da década de sessenta a Escola Tauromáquica de Torres Novas, propriedade de senhor Mário Leão, teve a frequentá-la dois rapazes de cor, o moçambicano Ricardo Chibanga e o Bigodes, que para ali foram aprender os segredos da arte de tourear.

Radicados em Torres Novas, era costume espreitá-los do cruzeiro nos seus treinos com a tourina, com rodas de bicicleta e com um bem composto par de cornos a fingir de touro e onde recriavam belos lances de capote e muleta.

À noite, juntavam-se à juventude torrejana desse tempo e frequentavam os cafés e cervejarias locais, almoçando e jantando muitas vezes no Valeriano e indo ao recém inaugurado Virgínia, ao cinema, no tempo em que ir ao cinema era um verdadeiro luxo.

O Ricardo Chibanga e o Bigodes eram figuras populares nessa época na nossa vila e a eles se juntava o Carlos Teixeira da Golegã, que nessa altura aqui trabalhava.

Com eles fiz amizade e recordo-me de ter ficado numa sessão de cinema, numa cadeira da fila da frente onde eles estavam sentados.

Nessa altura recordamos que havia, antes do filme principal, os trailers dos próximos filmes e uma séria de documentários das Actualidades, com um locutor com uma voz muito peculiar, que anunciava em tom meio afrancesado a rubrica “Assim vai o mundo”.

Num desses documentários e nessa noite, apresentava-se a chegada do toureiro Armando Soares ao aeroporto da Portela, vindo do México, onde tinha obtido imenso sucesso.

E recordo-me de ouvir o Bigodes dizer para o Chibanga: “ Estás a ver, qualquer dia filmam a nossa chegada depois de triunfais touradas no México. Era um sonho”.

Do Bigodes, sei que continuou como bandarilheiro por uns tempos mas perdi-lhe o rasto e desconheço a sua situação actual.

Do Chibanga, o seu sonho realizou-se e as suas chegadas ao aeroporto depois de triunfais corridas no estrangeiro foram uma realidade.

Depois o tempo passou e eu tive o grato prazer de o reencontrar na Golegã e de com ele conviver durante largos anos.

Como toureiro todos o conhecemos e lhe reconhecemos a sua coragem, humildade, honestidade e garra. Como homem ele é também assim, humilde, sincero, amigo do seu amigo, leal e alegre.

Tive o prazer de com ele conviver durante mais de dez anos em tertúlias fadistas e tauromáquicas, na Tasca do Genito, no restaurante do Carlos Teixeira e no Café Central.

Logo pela manhã, quando eu ia trabalhar para a Golegã, muitas vezes o encontrava com um ferro bem pesado e em passo acelerado no seu treino. Com ele me metia e da sua parte lá vinha o seu sorriso franco e rasgado.

Num seu aniversário tive a honra de aceitar, com minha esposa, o seu convite para um jantar de anos em sua casa, onde estavam sua esposa, sua filha e alguns amigos como Martinho do Vale, Gustavo Zenkl, António Poeira, Carlos Teixeira de entre outros.

Escusado será dizer que foi uma noite de convívio e de fadistice que ficará sempre gravada no meu coração.

E para terminar, pese embora o Ricardo ter evoluído como toureiro com a ajuda do mestre Patrício Cecílio, nunca esqueceu a sua passagem por Torres Novas, nunca se esqueceu de Mário Leão e dos muitos amigos que ainda hoje aqui mantém.

Ao artista e ao amigo as minhas saudações cordiais.

jorgempinheiro@hotmail.com

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados