SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 22 Junho 2021, 20:56

Noite de Fados no Café Muxima – Torres Novas – Anos 60/70

Para a gente da minha idade e, uns anitos a mais ou a menos, será bom recordar o Café Muxima situado na Rua Miguel Bombarda onde hoje se situa o Banco Banif.

Era um café bastante moderno para a época, orientado pelo senhor José Coelho e era bastante frequentado em finais da década de sessenta, quer de dia onde predominavam os estudantes que para ali iam estudar e conviver, quer à noite onde quase não havia uma mesa ou cadeira vagas.

Era na época em que era moda conviver nos cafés em grupos de amigos e o ambiente daquela casa era bastante agradável.

A malta mais nova que fumava o seu cigarrito abusava um pouco da paciência do senhor Coelho, deitando muitas vezes o morrão do cigarro nos pires das chávenas de café, desprezando muitas vezes os cinzeiros na mesa, que ali estavam para esse fim. O senhor Coelho pelo menos uma vez que eu ouvisse, deu um valente correctivo a um dos prevaricadores e disse-lhe: “ Se o cavalheiro volta a pôr a cinza do cigarro no pires eu passarei a servir-lhe o café no cinzeiro”.

O Muxima foi de facto um café que deixou muitas saudades aos torrejanos que o frequentaram e foi precisamente ali que aconteceu um episódio que não mais esqueci.

Estava eu com dois ou três amigos no Café Viela, do senhor Mário, de saudosa memória, quando de repente vimos aparecer um amigo que era suposto nessa hora estar na guerra colonial, na Guiné a combater os chamados terroristas.

Vinha alegre e mais alegre ficou ao encontrar-nos e ao explicar-nos que tinha ganho o prémio Spínola, que premiava actos de heroísmo em combate ao inimigo. Um mês na Metrópole era o prémio e logo ali à mesa se festejou o evento.

Perguntou-nos como ia a vida na vila de Torres Novas e se havia alguma coisa de interesse nessa noite. Informei-o que havia fados no Muxima e de imediato o nosso destino dessa noite estava traçado. Todos para os fados matar saudades.

Lá nos instalámos, a casa estava bem composta com amantes dos fados e alguns amantes dos touros e das pegas, pois mais ao fundo da sala estavam alguns forcados do Grupo de Forcados Amadores de Santarém.

Não me lembro de quem eram os músicos nem o nome dos fadistas dessa noite. O nosso herói da Guiné estava radiante e escolhida a mesa onde nos sentámos, pediu de imediato uma garrafa de whisky ao senhor Diamantino Maia (empregado de serviço nessa noite de fados) e à sua chegada à mesa perguntou o preço da garrafa e foi aí que se iniciou o rastilho da noite. “Que diabo, na Guiné uma garrafa igual a essa custa-me menos de metade. Isto é um roubo e eu não ando diàriamente a arriscar a vida para ser roubado…”

Os ânimos alteravam-se , a fadista estava quase a começar o seu primeiro fado com um vistoso e castiço xaile negro, mas qual quê, o nosso guerreiro não calava a sua indignação e a sua revolta.

Os forcados, ao fundo, pediam siêncio, mandavam-no calar mas o nosso herói bradava que não admitia ser tratado daquela maneira, ele que na véspera tinha andado sob fogo real nas matas da Guiné a defender os que cá estavam.

A coisa aqueceu, havia convites para o confronto físico e o nosso “valente” só pedia “um de cada vez”. Entretanto começou a organizar na mesa um “golpe de mão”…Tu Pires atacas com as garrafas, tu João Luis com os copos e talheres, o camarada Vidal encarrega-se das cadeiras e os restantes servem-se dos punhos, etc.etc.. E aqui vai disto…

De fado nada se ouvia ou adivinhava, nem um trinado de guitarra ou de viola, nem um gorgeio de garganta fadista. Perante a algazarra o fado calou-se num profundo silêncio, como manda o figurino.

Mas a festa que se ia transformar em arraial ia começar. E foi nesse momento que eu, que de herói não tenho nada, disse ao “comandante” que estava à rasquinha para fazer um xi-xi e que voltava logo que pudesse.

É o voltas ! Antevendo uma noite de pancadaria, aí fui eu para casa, na paz do Senhor.

No dia seguinte de manhã venho à vila e passo pela Rua de Santiago na direcção da Praça do Peixe, não sem pedir a Deus para me não cruzar com nenhum dos meus comparsas da véspera.

Lá rezar eu rezei mas Deus não ouviu a minha prece.

O destino tem destas coisas pois ia eu no meio da referida rua quando em sentido contrário e em passo acelerado a caminho de casa, lá se cruzou comigo o meu amigo da Guiné, que só me disse: “Então pá, já saíste da casa de banho?”.

Ouvi e calei, mas pensando bem só fiz bem, porque ao chegar ao largo da Pastelaria Império, não se falava em mais nada senão da noite anterior nos fados do Muxima, onde diziam ter havido pancadaria entre malta de cá e da Golegã e Santarém, que até meteu polícia e que até tinham ali ficado hospedados alguns artistas…

Abençoada vontade que me deu…

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