SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 16 Junho 2021, 03:08

O meu primeiro vencimento…

No seguimento de meu artigo recente eis-me a receber o meu primeiro ordenado na Unifa. Recebi 1.250$00 ilíquidos e no final do dia não me cabia um chícharo no… de contente que estava.

Logo a seguir à Pastelaria Primorosa quando eu já acelerava o passo para ir mostrar a “massa” ao meu pai que me aguardava em casa, eis que surge um comerciante do ramo de sapataria, manda-me parar e diz-me: “Sei que já recebeste o ordenado e nem sabes o grande favor que me fazias se mo emprestasses todo, pois estou desgraçado se não pagar uma letra ao banco amanhã logo de manhã. Depois durante a semana devolvo-te o dinheiro integralmente”.

Ora esta hein, nem lembrava ao diabo, acontece que o meu querido dinheirnho, o meu primeiro ordenado que me custou tanto a ganhar, ainda bem quentinho no meu bolso, saltou para a carteira do referido senhor, pois ele tocou-me o coração e não soube dizer-lhe que não. Caramba era um belo acto de “escuteiro” e daí a uns dias o dinheiro havia de voltar ao meu bolso.

Chegado a casa lá estava o meu querido pai a receber-me e a perguntar se já me tinham pago. Tive que lhe dizer a verdade, que o tinha emprestado a um amigo seu e ainda nosso parente, pois apareceu-me no caminho a chorar e a implorar que o salvásse pois tinha que pagar uma letra na manhã seguinte.

O meu pai, que conhecia a peça por dentro e por fora, ficou furioso, ralhou comigo a até tirou o cinto, só para me fazer umas cócegas.

Aí tive a minha avó Glória a apartar-nos e fê-lo com tal azar que caíu e fracturou um braço. Outra chatice atrás da que tinha já acontecido. Lá se levou a avó Glória ao hospital, lá se tratou, mas eu fiquei sem o dinheiro e com a fama dentro da família de ser o tenebroso neto que tinha partido o braço à avó.

Passou-se outro mês, outros meses e lá fui recebendo os meus ordenaditos que ajudavam a aliviar as dificuldades da família, mas o tal senhor, nunca mais me apareceu no caminho para me pagar, ou pelo menos para me informar que não estava esquecido. Lá dinheiro para fumar

e muito, ele ia arranjando, mas o meu isso era para eu esperar sentado.

E foi aí que o meu pai actuou. Perguntou-me pela enésima vez se a conta estava liquidada, e eu respondia-lhe sempre que não e de uma vez disse-me: “Anda daí comigo, vamos tratar já desse assunto.”

O meu devedor negociava em sapataria fina e ao ver-nos entrar nem desconfiou da intenção do meu pai, que começou a ver e a escolher pares de sapatos de homem com o meu número, que me dizia para experimentar. E não sei se foram quatro ou cinco os pares que apartou e escolheu.

Feito isto, dirigiu-se ao “amigo”e disse-lhe: “Tu prometeste pagar ao meu filho o ordenado que ele te emprestou, logo na semana seguinte. Como já passa mais de um ano estou aqui a tratar do pagamento. Não é em dinheiro será em género.”

E saiu dali comigo sem qualquer réplica.

Desta forma arranjei maneira de reaver o meu primeiro ordenado e fiquei bem calçado por uma boa temporada.

Sapatos calçados, contas saldadas, assunto arrumado.

E nunca emprestem a ninguém o vosso querido ordenado, em especial o primeiro vencimento.

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