SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 22 Junho 2021, 21:17

José Torres – O atleta, o homem e o amigo

Conheci o José Torres na sede da Sociedade Columbófila Torrejana quando aos onze anos fui “apanhado” pela prática desse desporto apaixonante. A sede situava-se onde hoje é a recepção e restaurante do Hotel de Torres Novas na Praça 5 de Outubro e ainda lá está o gradeamento para preservar a memória desse local.

Ele era nessa altura um jovem nove anos mais velho que eu e era sócio do Carlos Domingos no desporto dos pombos. O Carlos era funcionário do escritório do Félix Carreira e morava na Rua de Valverde, mesmo defronte à minha casa.

Durante a semana e em especial ao domingo lá estava eu à janela a olhar para os pombos e para o pombal do Carlitos e do Torres, situado na sua varanda e de pequenas dimensões.

Em especial aos domingos ocorriam as chegadas dos concursos e foi dali da varanda para a minha janela que o Torres me aconselhou a ficar do lado de dentro e a não fazer gestos ou barulho que podiam assustar os pombos.

Foi mesmo ali que os pombos me “conquistaram” num amor que dura até hoje, pese embora ter deixado de concursar há cerca de 7 anos.

O “bichinho cá continua” e também a saudade de ver correr o nosso Zé com as anilhas dos pombos chegados para o relógio constatador que se situava no Largo do Vitor Ferreira à porta da casa Pataratas.

O Zé nem sempre era o primeiro a chegar ao largo, mas a sua larga passada fazia-o ultrapassar outros corredores vindos de outros pombais da zona.

Depois os encontros na Columbófila eram frequentes e o Torres era um campeão nos jogos de dominó, nas damas, no bilhar e no ténis de mesa que se jogavam ali em final dos dias. Ninguém lhe ganhava e quando tal sucedia, o que era raro, tínhamos de aturar a sua irritação pois nunca gostava de perder. E é justo recordar as suas grandes partidas de bilhar com adversários como o Carlos Bandarra e outros bons jogadores e que prenderam a atenção de muita gente que a elas assistia no Café Central no Largo da Botica.

Anos depois teve um pombal no Babalhau, penso que numa fazenda do pai do Manuel Barquinha, que ali também praticava o mesmo desporto.

O Barquinha, o João Carreira, o Sousa, o Plexa, o Afonso, o Razões, o José Maia, o Armando Ramos Deus e sobretudo o Manuel Pedro dos Santos (o nosso Ministro) faziam parte do seu núcleo de columbófilos amigos e esse sentimento durou durante muitos anos até ao fim dos seus dias.

A estes nomes devemos juntar os restantes amigos do Tufeiras Futebol Clube onde se iniciou nas lides futebolísticas.

O pai do Zé Torres não queria por nada que o filho tivesse pombos e segundo consta, após uma forte discussão com o pai, foi ao pombal e acabou com os pombos, chorando intensamente a sua mágoa e desgosto.

Também constava que o pai não queria por nada que ele jogasse futebol, mas aí, a sua classe e o seu valor sobrepuseram-se à vontade do pai, convencido que foi por muitos amigos. O pai do Zé, o Chico Barril, vendedor de peixe no mercado diário de Torres Novas, tinha, em tempos, sido um bom defesa do Torres Novas, mas uma lesão cortou-lhe bem cedo a sua carreira. Daí o não querer que acontecesse o mesmo ao filho.

Depois veio o futebol e o nosso Desportivo. Eu tive a honra de ver o seu primeiro jogo de juniores e de assistir ao seu primeiro golo.

O treinador, que eu penso ser na altura o José António Pinto colocou-o a suplente. Entretanto há um penalty a favor do Torres Novas e os seus colegas em campo pediram ao treinador com veemência que fizesse entrar o Zé Torres e que fosse ele a marcar o penalty. E assim foi. Entrou, marcou o penalty e foi golo, marcado com uma valente biqueirada..

Seguiram-se os seniores, com o treinador Angel Vinueza a aproveitar-se da máquina de fazer golos que o Zé Torres já era. E todos os amantes do futebol local desse tempo se lembrarão que quando o Torres Novas saía em contra ataque e ultrapassava o meio campo, o Vinueza que também jogava gritava: “ José gol, José gol, remata…” e muitas vezes eram golos magistrais.

À tardinha, no Largo da Botica, aguardavam-se os resultados do Torres Novas em jogos fora de casa e pelo menos lembro-me de um em Almeirim que o Torres Novas ganhou por 13-0.

E a malta perguntava: “E o Torres marcou quantos ? – Marcou só 10.

Só quero aqui recordar um célebre jogo realizado para o Distrital no campo dos Ferroviários do Entroncamento, nossos eternos rivais de antigamente. Ganhámos por cinco a zero e o José Torres só marcou cinco e todos na primeira parte. Eu estava por detrás da baliza dos da casa, do lado dos balneários e bem ouvia os adeptos do “ferrobico” a meterem-se com o Zé, chamando-lhe nomes não muito recomendáveis e gritando “não vales nada!”. O Zé só sorria e piscava-me o olho. Ao quarto golo só se riu para mim, pois os “fenómenos” já tinham todos saído dali e nem esperaram pelo quinto.

Seguiu-se o destino natural dos predestinados, Lisboa e Benfica, onde o seu lugar estava tapado por um senhor chamado José Águas.

O nosso Bom Gigante jogava pelas reservas do Benfica e no Record de fim-de-semana, começava a falar-se de um jovem alto, longilíneo, que marcava golos às carradas.

Ainda nessa fase recordo os tempos que com ele convivi em férias, na praia da Nazaré e com ele estavam o Jorge da Académica de Coimbra, o Maximiano defesa do Benfica e o Calado, jogador de cor da mesma fornada. Os quatro davam autênticos shows de toques na bola, à beira mar, sem a deixar cair no chão e por aí se via que o Zé de tosco não tinha nada.

Depois veio a titularidade no Benfica e o José Torres, já columbófilo de renome na zona de Lisboa nunca se esqueceu da sua terra e de uma vez conseguiu trazer para a nossa colectividade mais de uma dezena de belas taças oferecidas por cada um dos craques do Benfica europeu incluindo uma do rei Eusébio da Silva Ferreira.

De outra vez era eu secretário da Direcção da Columbófila, enviei-lhe uma carta a solicitar-lhe uma taça para a Campanha Desportiva e ele respondeu-me e informou-se que sim senhor, que tinha já mandado fazer um troféu e que teria o maior gosto em vir entregar-mo pessoalmente na Columbófila. E assim aconteceu, num Sábado de manhã entregou-me um lindo troféu com uma placa onde se inscrevia a menção: “Família Torres”. Um lindo gesto e um bonito troféu que, se bem me recordo foi ganho pelo campeão e seu grande amigo João Farinha Cordeiro.

Por outra vez fez despachar pela empresa Claras alguns belos borrachos, de boas proveniências, oferecidos aos seus amigos e colegas, que lhe ficaram muito agradecidos. Desses pombos, foi famoso um célebre “Zangalhão” do nosso “Ministro”, que fez furor como voador e como reprodutor.

A celebridade e a fama nunca lhe subiram à cabeça e o amigo José Torres continuou igual a si mesmo, amigo do seu amigo e um bom companheiro, presente em inúmeros leilões de borrachos nas colectividades da região, onde trazia colegas da região de Lisboa, cada um oferecendo um bom borracho sendo ao mesmo tempo bons compradores. Até se dispôs uma vez a jogar futebol na Meia Via, numa festa organizada pela Sociedade Columbófila Meiaviense em que se defrontavam os columbófilos locais e outros das colectividades vizinhas. Joguei pela selecção com ele e na segunda parte joguei contra ele e lembro-me dele me dizer: “Agora que te estou a marcar não vais tocar na chicha”…E não toquei mesmo.

A sua carreira foi sempre em crescendo, o Benfica a selecção, o Estoril Praia, o Setúbal e o começo de treinador até chegar a seleccionador nacional.

Todos os portugueses o admiraram e todos sofreram com ele a sua doença que o martirizou durante largos anos. Todos choraram a sua ainda recente morte, mas recordá-lo nestas despretensiosas linhas é seguramente fazer minhas as palavras de admiração e de amizade que o José Torres sempre fez por merecer de todos os torrejanos seus amigos.

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