SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 14 Junho 2021, 20:28

Dos meus tempos na Unifa (União Fabril Farmacêutica)

Tinha acabado de chumbar à cadeira de Filosofia do antigo sétimo ano liceal e naturalmente o meu pai tratou de tentar conseguir-me um emprego, pois aos dezassete anos, naquela altura, era já bem tempo de começar a trabalhar e ganhar uns cobres para casa em vez de continuar a “passear os livros” como se dizia na altura a quem marcava passo nos exames.

Alguém o informou que a Unifa (União Fabril Farmacêutica) com armazém grossista de medicamentos, necessitava de um empregado para o escritório. A empresa situou-se durante largos anos no rés-do-chão do prédio do Galamba, no final da Rua Nova de Dentro, onde esteve a Seguradora Bonança e onde hoje se situa um laboratório de análises clínicas.

L

á fui a uma primeira entrevista, não pagavam muito mas já nesse tempo um emprego era um emprego e não se podia deitar fora.

Tudo ficou mais ou menos acordado quando, passados poucos dias, informaram o meu pai de que o lugar já tinha sido ocupado por outro, de boas famílias e a quem por reverência, não puderam negar o lugar.

O meu pai ficou furioso e para se vingar, mandou-me com a minha mãe e irmã passar férias para a praia da Nazaré. E está-se mesmo a ver que eu fiquei muito ralado com a situação.

Só que ainda só tinham passado cinco dias de praia para mim, e cinco dias de emprego para o tal rapaz, quando o meu pai me chamou de urgência para me vir apresentar na Unifa, logo no dia seguinte, uma vez que o tal moço se cansou depressa de trabalhar e tratou de desistir enquanto era tempo.

O ordenado que ele ganhava era de 2.500$00 por mês e vinha-me mesmo a calhar. Só que, ao ser admitido o meu ordenado foi de 1.250$00, o que me deixou muito triste. Será que ele teria duas bocas e eu só uma ?. Embora contrariado, lá comecei a entrar na engrenagem com a ajuda do Manuel Oliveira ( hoje sócio gerente da Plaspeças), do Lobato que era o chefe de armazém, do João Ribeiro (VT), do Germano António da Silva, do Figueiredo, do José Tuna do Manuel da Ribeira e do Xavier de entre outros.

E caros amigos, ali trabalhava-se no duro, das 9 às 19 horas até aos Sábados e por vezes aos Domingos de manhã e não havia tempos mortos, era sempre a dar-lhe. Imaginem o que é processar as encomendas de quase todas as Farmácias dos distritos de Santarém e Leiria, aviar tudo embalar e despachar pela camionagem Claras, ou preparar tudo para que o “viajante”as pudesse levar logo de manhã quando saísse para a sua volta.

Aquilo era de aflitos, com os pedidos todos urgentes a serem recebidos por telefone, pago pelas Farmácias, que não transmitiam mas sim cantavam a um ritmo acelerado e nós, que os atendíamos, a ter de fazer milagres de escrever correctamente os medicamentos pedidos a correr… Mas vá lá, que eu saiba nunca ninguém se enganou nas dosagens e nunca ninguém morreu por causa disso.

Em termos de convívio daquela equipa, aquilo funcionava como uma família onde não faltava nem a entreajuda quando necessária, nem o ralhete quando dado na hora certa. No meio de tanta azáfama a brincadeira era geral e dava gosto trabalhar ali.

Ainda hoje, passados tantos anos, a malta aqui residente continua a conviver, dando sempre dois dedos de conversa para actualizar.

Do falecido José Tuna, recordo a sua sagrada hora do lanche no Zé da Ana, com uns branquinhos e uns pastelinhos de bacalhau para contentar o estômago.

Recordo ainda o Agostinho, homem da região de Cantanhede, que para além de bom rapaz, falava pelo nariz devido à sinusite.

Do meu chefe Lobato, ficou a lembrança da sua Vespa, do vício do dominó no Café Portugal e a sua confusão telefónica com a doutora da farmácia do Pinheiro Grande, quando confundiu agrafes cirúrgicos com agrafes de escritório, mandou esperar a doutora, foi à Papelaria Delta, voltou e informou:” Não há agrafes com essas medidas, estão esgotados”.

Ao fim de ano e meio de ali trabalhar a Unifa deu lugar à Diprofar – Distribuidora de Produtos Farmacêuticos e eu com dezoito anos fui trabalhar para a Sede na Rua do Poço dos Negros à Madalena em Lisboa e essa história da minha vida lisboeta, ficará porventura para outra oportunidade.

Acabo, não sem fazer justiça aos dois colegas, João Ribeiro e Germano Silva que me convidaram para seu sócio na aquisição da Unifa e fazer com eles parte da Diprofar. Na altura agradeci reconhecidamente mas como não tinha dinheiro e o Choral e o namoro estavam sempre primeiro, recusei, passando ao lado de uma bela oportunidade para singrar na vida.

Mas estava escrito que não seria esse o meu caminho. Valeu pela experiência e pela amizade aos colegas, que ainda hoje perdura.

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados