SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 14 Junho 2021, 17:02

Custa muito ser roubado…

Ao longo da minha vida aconteceram-me duas situações curiosas, daquelas que nós pensamos só acontecerem aos outros ou que só se vêem na televisão e nos filmes. Fui roubado.

Uma bela carteira de cabedal de alguma dimensão, como se usava há dezenas de anos, foi-me roubada, não uma, mas duas vezes. De ambas as vezes o dinheiro foi-se mas os documentos importantes salvaram-se o que menorizou a gravidade dos factos e tornou os roubos mais suaves e civilizados.

Vamos ao primeiro, estamos em Março, em plena Feira de Março no Largo General Humberto Delgado e eu com um grupo de amigos fomos à noite, beber um copo à Taberna do António Sapateiro, onde hoje se situa a Loja dos Seguros.

Avisei logo que quem pagava era eu, lá veio a primeira rodada, a segunda e quando me prestava para pagar, a referida carteira que tinha sido por mim colocada em cima do balcão, mesmo nas minhas barbas, já lá não estava. Pensei numa brincadeira dos meus amigos mas cheguei à triste conclusão que tinha sido roubado… Foi limpinho e sem caroço…

Dinheiro e documentos tinham sido postos ao vento por um amigo do alheio… Oa meus colegas para minha vergonha tiveram que pagar a despesa e eu lá percorri toda a feira em busca do impossível. Avisei este e aquele, inclusive a polícia, mas o resultado foi zero. Lá tinha eu que tirar outro Bilhete de Identidade, outra Carta de Condução e outro Cartão de Contribuinte pelo menos…

A feira acabou, passaram-se mais uns dias e no final de um dia feliz, apareceu em Valverde à minha porta um amigo com o meu Bilhete de Identidade a perguntar por mim. Trazia a carteira castanha e os documentos. Trazia também um rapazola com cerca de dez anos e informou-me que o tinha apanhado a jogar à bola, no recinto da feira com a minha carteira… Lá agradeci ao amigo e lá perdoei ao miúdo não sem antes o assustar, mas ainda lhe dei 20$00 de recompensa e o recado para que não voltasse a tirar nada a ninguém.

Anos mais tarde, fui a um curso de formação bancária no Hotel Diplomático em Lisboa e antes de regressar com o meu colega Búzio estive no hall do hotel cerca de uma hora à espera de outro colega e passageiro.

Nesse intervalo de tempo coloquei a dita carteira de cabedal sobre a mesa mesmo à nossa frente e quando estávamos todos lá partimos.

Perto do estádio do Sporting um ardina vendia os jornais da tarde no meio do trânsito que estava quase parado. Pedi-lhe o Diário de Lisboa e tive que desistir porque…não tinha a carteira. De imediato regressámos ao hotel e ali chegados em cima da mesa não estava nada… Dirigi-me à recepção e perguntei se não tinham guardado uma carteira que eu tinha posto sobre a mesa sendo a resposta negativa e desesperante. Desta vez tinha muito mais dinheiro e os documentos habituais.

Eu vinha à boleia até Santarém e depois tinha que vir pela Rodoviária Nacional para Torres Novas e era preciso dinheiro para o bilhete. Estava eu quase a desistir quando a meu lado, ainda na recepção, aparece um velhinho de aspecto muito respeitável com a tal carteira castanha na mão e um documento a perguntar se sabiam de um Pinheiro da Golegã…

De imediato me antecipei, disse-lhe que era eu, que trabalhava no banco na Golegã e que a carteira era minha… “Olhe meu senhor, eu sou ascensorista ali mais abaixo, na Rua Castilho, vi entrar no elevador dois rapazolas novos que saíram de imediato e lá deixaram esta carteira. Depois vi este papel do Hotel Diplomático, com o seu nome e aqui estou. Tem documentos mas dinheiro, nem um tostão”.

Lá conferi os cartões e os documentos de identificação e nem cheirei os mais de trinta continhos que tinha levantado para a viagem e para o fim de semana e como o velhote me disse o nome e que era primo do senhor Afonso da Golegã, que eu tão bem conhecia, até lhe prometi uma recompensa.

Só que logo na segunda-feira de manhã lá fui eu à tasca do Chico Afonso, contar-lhe a história e gabar a atitude do seu primo que era ascensorista na Rua Castilho em Lisboa. O amigo Afonso de imediato me respondeu que não tinha nenhum primo em Lisboa e que eu tivesse paciência, porque fui muito bem enganado.

Na viagem de regresso tive que mandar parar o Búzio para tomar ar, porque até tinha dificuldade em respirar e não fora o meu amigo custear o bilhete do autocarro, lá teria eu ficado em Santarém tesinho que nem um carapau congelado…

Custa muito ser roubado e só quem já passou por estas situações é que pode dar o devido valor ao que se sente de impotência, de injustiça e de revolta.

A carteira ainda a tenho, mas bem arrumada no sótão, com a indicação de “Perigo – Não usar!“ para que não haja uma terceira vez.

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