SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 17 Junho 2021, 04:18

Lusofonia e Portugalidade

 

A nossa língua para além de ser o elo de ligação de toda a nação portuguesa também o é do Brasil, de Cabo Verde, da Guiné-Bissau, de S.Tomé e Príncipe, de Angola, de Moçambique, de Macáu e de Timor, para além de outras regiões como Goa, Damão, Diu, Malaca e tantas outras.

 

A língua portuguesa, os nossos usos e costumes, a nossa cultura foram sempre ao longo de séculos um cimento de civilização e de educação, que ficaram como provas da nossa passagem por essas longínquas paragens até aos nossos dias.   

 

E se nos actuais países de língua lusófona ainda é o português a língua oficial que nos continua a unir como comunidade, também naqueles que há muitos anos deixaram de ser de domínio português a nossa língua ainda é falada, em objectos do dia a dia, em festas tradicionais, em orações a Deus e à virgem e também em canções, as verdadeiras canções populares levadas para terras de outros mundos pelos nossos navegadores, pelos mercadores de especiarias, pelos padres e missionários, por portugueses de outrora que ali deixaram marcas que ainda hoje perduram e que é pena que se desvaneçam cada vez mais, pois se não se lhes deitar a mão perder-se-ão, perdendo-se com isso a nossa presença milenar, a nossa língua e a nossa cultura. Refiro-me concretamente à Índia e a Malaca, onde os nomes das pessoas e de alguns objectos do dia a dia local, ainda são bem portugueses para nosso orgulho.

           

A propósito da lusofonia quero-vos contar duas experiências que tive o privilégio de viver em França por alturas da participação do Choral Phydellius no 9º Festival Internacional de Canto Coral de Nancy.         

 

Corria o ano de 1995 e grupos corais de quase todo o mundo foram convidados um a um por grupos corais franceses que tomavam a seu cargo a recepção, alojamento e acompanhamento do grupo seu convidado.

 

Os diversos espectáculos decorreram com assinalável êxito por toda a região e o encontro terminou num espectáculo grandioso, com actuações individuais de cada coro estrangeiro e com algumas peças finais, em conjunto e em francês, para divulgar a francofonia.

 

Desde o País Basco, à Alemanha, à Argentina, à Arménia, à Áustria, passando pela Bielorússia, Brasil, China, Congo, Egipto, União Indiana, Israel com dois coros, Itália, Letónia, Filipinas, Polónia, Portugal, Roménia (O Coral Lyra com quem temos mantido intercâmbio), Rússia, Eslováquia, Estados Unidos também com dois coros, actuaram com canções dos seus países, tornando o Festival uma imponente mostra de toda a música coral mundial.

 

Estávamos no encontro final e antes do jantar fomos recebidos pelas entidades oficiais de Nancy e gerou-se entre todos o convívio possível.

 

Nós, no nosso canto lá cantarolávamos a “Rama oh que linda rama”, quando de repente se chegou a nós um grupo de moças do Coro Indiano, mais propriamente “The Stopgaps Choral Ensemble de Bombaím”, que para nosso espanto começou a cantar em português o tema “que saudades eu já tinha, da minha casa velhimha, tão modesta quanto eu” e o “Lá em cima está o tiro liro liro, cá em baixo está o tiro liro ló, juntaram-se os dois à esquina a tocar a concertina, a dançar o sólidó…”. Claro que cantámos alegremente com eles e sentimos em nós o orgulho de sermos portugueses. Elementos dos outros coros olhavam-nos invejando o nosso convívio indo-português. Os seus apelidos eram-nos familiares, tais como Souza, Magalhães, Coelho, Silva, Gonçalves, Mendonça, Pereira, Athaide, Dennis, Fernandes, Menezes, mas nenhuma delas era de origem goesa, nem de Damão ou Diu, daí o aumento da nossa admiração e a certeza de que os nossos antepassados deixaram bem marcada a sua passagem por toda a região indiana, fomentando um verdadeiro casamento de nomes, de famílias, de hábitos e de cultura portugueses. Diziam os indianos que tinham sido os seus avós quem lhes tinha ensinado aquelas canções.

 Nunca mais esqueceremos aqueles minutos de espontâneo convívio gerado pela nossa língua portuguesa e só possível pelas marcas dos nossos antepassados deixados naquelas longínquas paragens.

           

Também na missa conjunta na Catedral de Nancy reparámos num velho mendigo de ar andrajoso, barba grande e desalinhada, um qualquer homem da rua. E no final da missa esse homem dirigiu-se ao nosso autocarro e comigo e com outros elementos do Phydellius falou, dizendo-nos que conhecia muito bem Portugal, as nossas descobertas, os feitos heróicos dos nossos navegadores e missionários, das batalhas do Salado e de Aljubarrota, do Rei D.João II, do Infante D. Henrique e de Vasco da Gama. Ele falava em francês, mas os seus conhecimentos sobre a nossa história deixaram-nos estarrecidos. Afinal, o sem abrigo andrajoso e pobre, era o Louco de Nancy, um antigo professor universitário, filho de famílias muito abastadas e que por ter perdido a esposa e um filho num acidente de viação, escolheu como futuro essa vida solitária sem ligar a bens materiais para ser apenas e só mais um homem do mundo…

 

Isso nos foi explicado por elementos no coral francês que nos acompanhavam mais nos informando que apesar do seu aspecto descuidado, continuava a ser uma personagem admirada e respeitada pelos habitantes de Nancy.

 

Dois pequenos exemplos que vivi e que jamais esquecerei. Dois grandes exemplos de portugalidade, da nossa história e da nossa língua materna, da força real da lusofonia em todo o mundo.

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