SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 21 Junho 2021, 22:39

A Rua Nova de Dentro

 

Sempre me habituei a observar a Rua Nova de Dentro ou não estivesse ela mesmo defronte da janela da minha casa no Largo da Rua Nova a Valverde.

 

Para ali fui viver com um ano de idade e aquela rua sempre despertou em mim sentimentos de curiosidade e de interesse, pois a ela afluíam em direcção ao centro da vila ou faziam o caminho inverso, muitas centenas de transeuntes da nossa terra, moradores  da zona alta da vila e dos lados da Rua das Freiras ou do matadouro, antes e depois de fazerem as suas compras nas inúmeras e diversas lojas do centro da vila.

           

E o movimento sempre foi grande em pessoas e viaturas pois aquela artéria fazia a ligação entre a Rua Miguel Bombarda e a Rua Serpa Pinto, que pelo seu comércio sobressaíam na época às restantes. Era também por ela que o táxi “Cem à Hora” do senhor Quitério, saía e regressava à sua garagem na Rua dos Ferreiros, situada por cima da moradia do senhor Fernando Alva, figura de relevo da nossa terra.

           

A Rua Nova de Dentro era bem mais que uma rua de ligação pois também tinha os seus moradores, as suas actividades e por ali se faziam bons negócios.

 

Foi ali que existiu no edifício Galamba a delegação da CUF no primeiro andar, onde recordo o senhor Jorge Gabriel homem muito dinâmico a nível social e cultural da nossa terra e pai dos meus colegas de colégio o Jorge Gabriel e o José, que com o Zeca Galamba constiuiam o conjunto “Os Jotas”, que tocava só música dos Shadows mas com muita qualidade. 

 

A Unifa – União Fabril Farmacêutica situava-se no rés do chão, onde tive o meu primeiro emprego e conheci amigos para toda a vida que tenciono recordar a breve trecho.

 

Era na Rua Nova de Dentro que se encontrava a inesquecível Pastelaria Primorosa com o seu salão de bilhar e foi nesse prédio, no primeiro andar,  que o Choral Phydellius teve a sua sede, gentilmente cedida por Abílio Alexandre Inácio.

 

Também havia que me lembre um latoeiro, por alcunha o “Façica Mesion”, uma loja de sapataria do Joaquim Razões com vários sapateiros ao seu serviço, o escritório do advogado Dr. José Marques, a loja do Vitor, uma casa de mobílias do senhor João Coelho, mais tarde Tipografia Conde Marques, o Restaurante Pinco que depois deu lugar ao armazém da Sociedade Industrial Farmacêutica.

Era para a Rua Nova de Dentro que davam as traseiras da Casa de Móveis Pataratas e da padaria do senhor Armando Teixeira e ali existia o armazém de vinhos do senhor Luciano Simões, mais tarde armazém de Amílcar Galhardo.

 

Defronte existiu o consultório do enfermeiro Tolentino, mais tarde substituído pela Lavandaria Branclava do meu saudoso amigo José Manuel Cunha.

           

Ali morava o Chapeleiro Santos, com chapelaria já na Rua Miguel Bombarda, homem do norte com o seu sotaque e simpatia característicos, morando defronte dele o Conde Marques pai.

E não poderia faltar a tasca do sargento Dourado seguida da mercearia do senhor Manuel Ferreira, avô do meu amigo Carlos Goucho, mais tarde cedida ao meu padrinho Manuel Joaquim Pinheiro e agora Mercearia Nelito do meu amigo Manuel Gameiro que eu recordo de ver chegar, juntamente com o Vasco Fagulha, o primeiro da Meia Via, o segundo do Entroncamento, à mercearia do tio de meu pai Joaquim da Silva Patrício, ainda moços bem novos mas que adoptaram Torres Novas como sua terra e aqui singraram e fizeram respeitar a sua qualidade de homens de comércio.

 

Do Nelito quero aqui recordar o seu empregado de sempre, o Raul Faustino, profissional exemplar e homem com H grande, sempre pronto a ajudar quem dele necessite. Um bom empregado como ele tanbém faz uma boa casa comercial.

 

 Não posso esquecer o último estabelecimento da rua, a antiga Farmácia Calado, mais tarde Farmácia Nicolau, com o senhor Dr. José Lopes Nicolau a ser um dos pioneiros nas análises clínicas na nossa vila.

           

Esta farmácia deu lugar mais tarde à “Reserva” comércio de produtos de caça e pesca, dirigida pelo senhor Augusto Miranda.

           

No andar superior do mesmo prédio viveu a família do sargento Santos, de quem recordo a amizade que ainda perdura na pessoa de suas filhas     Luísa e Paula.

Era como se podem aperceber uma rua bem viva e recheada de homens e mulheres que muito se notabilizaram na nossa terra, nomeadamente no mundo das artes, do comércio, da indústria, da saúde e da cultura.    

           

Eram pessoas ali moradoras ou que ali trabalharam anos a fio e que davam àquela artéria um cunho muito especial.

           

Era também um ponto de encontro de jovens amigos que viviam em travessas que à rua ligavam como a Travessa do Forno, a Travessa dos Albardeiros e a Rua António Prestes.

Eram os casos do Lavos, do Manuel Sardinha, do António Sardinha, do Coelho, do Plexa, do Carlos Luís, do Clotário e do José Maria Tarouco (Léu), que comigo brincavam nas frescas noites de verão

           

A vida evoluiu, os usos e costumes vão mudando constantemente, mas a Rua Nova de Dentro ontem como hoje lá continua, quase sem comércio, quase sem moradores, mas mantendo integralmente a sua tradição e a memória de continuar a servir de ligação ao centro da nossa hoje cidade.

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