SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 19 Junho 2021, 16:52

O frigorífico do sargento Esteves

 

Antigamente, pelo menos nos meus tempos de tropa, os tempos livres eram passados na sala de estar do bar da messe de sargentos a ver televisão a preto e branco, a beber uns copos, umas cervejolas e sobretudo a jogar à lerpa.

 

Muito se jogava à lerpa, logo a seguir ao almoço, à tardinha depois do toque de ordem e por vezes o vício era de tal ordem que havia menino que prolongava a jogatana pela noite dentro, acabando ao raiar da aurora, esquecendo o jantar, a mulher e os filhos.

           

Umas vezes ganhava-se quando se tinham nervos de aço e só se ia a jogo com três boas cartas de trunfo. Quando se ia a jogo o jogador dava uma pancada seca na mesa. Os que habitualmente iam pela certa, quando batiam assustavam os que se seguiam na roda. Os que jogavam antes deles e tinham ido a jogo, estavam à partida tramados.

           

Depois haviam os “profissionais”, os de que ninguém sabia o jogo que tinham, porque arriscavam quase sempre e ou ganhavam ou perdiam, mas estavam sempre em jogo.

            J

ogar com aquela malta era muito arriscado e eu que só de vez em quando “apalpava” a sorte, levei uma certa tarde um valente rombo que me serviu de lição para o resto da minha vida.

 

Foi em 1971 estava eu casado de fresco e ganhava por mês, como furriel miliciano a bela fortuna de mil e oitocentos escudos (9 euros). O prejuízo dessa célebre jogada não foi tanto mas andou por lá perto. É que eu tinha a bisca e o valete de trunfo e ainda outra bisca. Só fomos dois a jogo, eu e o homem que defendia a lerpa e foi o último a ir a jogo.

 

Entrei de rompante com a bisca da mesa e ele sacou do ás. Na segunda cartada mandou-me o rei da mesa e eu tive que assistir e entregar-lhe o valete. Para cúmulo joga-me um ás do naipe de que eu tinha a bisca. E lá fui eu…          

 

A coisa foi de tal forma que jurei nunca mais jogar a dinheiro e mantenho até hoje esse juramento. Jogar só a feijões, que dá prazer à mesma e fica muitíssimo mais em conta.

           

Mas o “casino” sempre continuou a sua função, causando mais tristezas do que alegrias e pondo muitas vezes alguns militares de carreira, sobretudo sargentos, sem um tostão no final do mês, porque o gerente de messe, primeiro sargento Esteves, nunca se esquecia de apresentar as despesas em dívida ao bar, de cada um. E era eu, que processava os vencimentos a ter de aturar os devedores para que pedisse clemência ao Esteves…mas qual quê, este era implacável e com razão, porque eram contas de dinheiro emprestado para o jogo e ele não suportava calotes.

           

Do Esteves e da jogatina há uma história hilariante que vos quero aqui hoje narrar. O casino (Messe) estava repleto de jogadores de lerpa, havia mais do que uma mesa a funcionar e todas com altas“casadelas” (1) e com bastante dinheiro em jogo.

           

A coisa prometia, quando de rompante o aspirante Chico Côco Mendes entra na sala e diz: “Rapaziada, está aqui na cozinha o senhor Brigadeiro Inspector da Região Militar de Tomar que está a ser retardado pelo oficial de dia e pelos cozinheiros, mas não demora”.

           

Foi o caos naquela messe. Abriram-se as janelas que davam para a parada e todos os jogadores sem excepção saltaram e sumiram-se para os seus serviços.

 

Só ficou o sargento Esteves, que apanhou todo o dinheiro e as cartas para dentro de um saco de plástico transparente e o meteu no congelador do frigorífico. Fez toda essa recolha num ápice.

           

Entra o Brigadeiro, cumprimentado com uma valente continência,

dirige-se ao bar, examina as prateleiras, as loiças, os escaparates e vira-se para o Esteves e ordena-lhe: “ Abra o frigorífico por favor! “. O Esteves cumpriu a ordem e eis senão quando o Inspector abre o congelador e lhe pergunta: “Mas o que é isto ?”…

           

O bom do Esteves, corado que nem um tomate maduro, só lhe soube responder: “ Saiba Vossa Excelência, senhor Brigadeiro, que isso é o que se chama de dinheiro congelado!”.

           

O oficial de dia quase a rebentar de riso e o Brigadeiro com ar de gozo lá saíram e nunca mais se esqueceram que naquela tarde tinham de facto visto “dinheiro realmente congelado”.

           

Esta só na tropa e ficou na história do GACA 2 de Torres Novas.

           

(1)        “Casadela”-   Dinheiro que cada um dos jogadores coloca na mesa, jogada a jogada prèviamente combinado.      

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