SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 14 Junho 2021, 19:33

O ovo cozido e a malandragem na tropa

 

Tudo se passou em Caldas da Rainha numa noite em que um grupo de sargentos do quadro permanente e milicianos, representava o GACA 2 (Grupo de Artilharia Contra Aeronaves nº2) nos campeonatos militares de andebol de sete.

 

A rapaziada lá seguiu numa carrinha de transporte militar, nas vésperas do jogo e instalou-se numa pensão local, livre das normas do quartel e com rédea solta para se deitar à hora que quisesse, o ideal como se repara, para a responsabilidade de um jogo oficial de andebol da Região Militar.

Comandava a equipa o primeiro-sargento Pimentel, já nessa altura com a sua imponente careca e da equipa faziam parte alguns furriéis milicianos, como o Costa, o Quinito, o Augusto,o Guerra, o Reis e outros tantos que não me recordo, sendo que  as armas secretas era eu e o grande furriel Fernandes de Barcelos, o saudoso Pai da Guerra, como era conhecido nas lides mais ou menos desportivas.  

 

 Claro que a denominação “armas secretas” funcionava ao contrário, pois tanto eu como ele alinhávamos sempre no banco de suplentes e só entrávamos uns minutitos, quando os outros já deitavam os bofes pela boca. Claro que eu entrava e saía logo, muitas vezes sem tocar na chicha, tal era o meu jeito, mas a coisa mudava de figura quando entrava o Fernandes, mais pela sua envergadura de gigante que pelo jeito que tinha, que era ainda pior que o meu.

           

Perdemos a partida não sei por quantos e foi bem feito, porque todos exagerámos de véspera, depois do jantar, num petisco numa cervejaria junto ao jardim, onde recordo que nos serviram uns belos petiscos, moelas, miúdos de frango, morcela, negra, chouriço e ovos cozidos, bem regados com umas boas cervejolas. A conta devia ser bem grande, não fora uma ideia do Pimentel, que pediu a nossa atenção para ver se aprendíamos alguma coisa.

           

Agarrou num ovo cozido, partiu-o ao meio, deitou-lhe de seguida uns pingos de vinho tinto e, de repente chama o empregado que nos servia e disparou: “Ouça lá, você quer assassinar oito militares ou quê?”. Já viu a cor deste ovo cozido, negro como o breu? Você quer envenenar-nos ? Já pensou na indemnização que terá de pagar pela morte de oito sargentos?”

 

O empregado ficou branco como a cal da parede, não queria acreditar, ficou sem palavras para se desculpar, foi falar com o patrão, que de imediato se dirigiu a nós, e quando o Pimentel lhe mostrou o ovo todo preto, desfez-se em mil pedidos de desculpas, que não tinha havido intenção, que era o primeiro caso que ali tinha sucedido, etc. e tal.

 

De seguida, convidou-nos a sair, que não queria dinheiro nenhum, que só queria o nosso silêncio e que ninguém se sentisse mal com os ovos que tivesse comido…

 

E só aí o Pimentel se desfez em riso, explicou ao homem que era tudo uma brincadeira de militares, que estivesse descansado pois nada lhe iria suceder de mal.

 

O bom do homem de imediato mandou o empregado fazer a conta e mandou servir-nos uns digestivos do seu bolso e foi aí que começou a desenhar-se a nossa copiosa derrota do dia seguinte.

 

O leite e a água mineral foram substituídos por uns belos brandys e whiskis, de tal forma que nos quartos da pensão não se conseguiu pregar olho toda a noite.

 

Só se ouvia o Pai da Guerra a gritar: “Estou cá com uma secura, estou cá com uma secura. Tragam-me água mineral”.    

 

E é esta a história do ovo cozido enegrecido por umas gotas de vinho tinto e das bebidas que o proprietário da cervejaria nos pagou depois do susto que o Pimentel lhe pregou.

 

Mas que belo estágio para a exigente partida de andebol.

 

Tudo aconteceu em Caldas da Rainha, terra de termas e das famosas cavacas. Mas a malta esqueceu-se das águas e no jogo levámos uma valente “goleada” ainda maior que os golos que tínhamos bebido na véspera.

 

E tudo isto por causa do ovo cozido…

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados