SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 19:41

Os “Castiços” e o I Campeonato Interbancário de Futebol de Cinco

Já lá vão largos anos, no tempo em podíamos correr e jogar futebol sem artrites ou artroses, no tempo em que podíamos chutar uma bola e não ir a correr atrás do pé como agora com dores lancinantes e que nos fazem lembrar que já temos caruncho nas pernas, mas a cabeça e a vontade de jogar à bola continuam bastante mais jovens e nem se lembram das dores. O pior era o dia seguinte em que nos doíam os músculos todos, em que para nos levantarmos ou sentarmos na cadeira de trabalho tínhamos que o fazer com um esgar de aflição e por tanto estarmos combalidos até nem nos podíamos rir, que doía.

Eram bons tempos na Banca, tão bons que respondemos ao apelo do Sindicato e nos inscrevemos no 1º Torneio Interbancário de Futebol de Cinco, nos inícios do Futsal de hoje.

Éramos do Banco Fonsecas & Burnay da Golegã e convidámos a participar na equipa alguns colegas do Banco Nacional Ultramarino de Torres Novas, que sabíamos serem bons de bola, a saber o Rogério Ferrão (O Patacha), o António Luis Alho, o Dinis, o Sequeira a guarda redes e o Luis Ferreira, um teórico na matéria que logo foi nomeado treinador e jogador suplente tal como eu.

Da Golegã havia o António Furrer Bracons, guarda-redes suplente, o Caetano Ferreira, portalegrense convicto mas scalabitano residente, o José Manuel Fanha e para dar uma perninha e fazer número cá alinhava eu.

Numa reunião gastronómica e copofónica foi escolhido o nome da equipa, “Os Castiços” e sem treinos, sem pernas, só com o jeito e a vontade, lá fomos jogar ao pavilhão de Alferrarede, contra uma das favoritas do grupo, exactamente o BES de Abrantes.

Quando entrámos nos balneários já os da “casa” lá estavam, bem equipados e massajados, recordando que ao entrar cheirava a pomada que tresandava. Lá fomos vestindo o nosso equipamento, calção branco e camisola vermelha e sempre olhados de soslaio e com ar de superioridade pelos colegas do BES que pensavam que aquilo era “Canja de galinha” e que os Castiços já estavam arrumados.

Começou a jogatana e ainda não tínhamos acordado e já tínhamos mamado o primeiro. Acordámos, e quando tentávamos o empate, levámos com o segundo, para gáudio dos adversários.

Eis senão quando o Alho lança o José Fanha, que lhe devolve a bola e o Alho com primorosa finta rematou e fez o nosso primeiro golo e assim chegámos ao intervalo a perder por 2-1.

No início do recomeço levámos com o terceiro e voltou a arrogância aos de Abrantes. Não desistimos, estávamos mais quentes, mais desentorpecidos e fizemos o nosso segundo, logo seguido do terceiro golo.

Estávamos empatados e os do BES estavam com os bofes pela boca, não acreditando no que lhes estava a acontecer. Lutavam, lutavam mas o resultado não se alterou e foi nossa a humilde festa, bem regada num “comes e bebes” retemperador. Éramos já uma equipa e na terceira parte ganhávamos sempre.

Verificámos mais tarde que de facto a equipa mais forte, com jogadores federados e tudo, era a do Banco Português e Atlântico de Ourém pois fizeram um óptimo campeonato e golearam quase todos na primeira fase. Eram cabazadas atrás de cabazados e nós lá íamos ganhando por poucos, ao BES de Torres Novas ( 5 a 1 ) , ao Banco de Portugal de Portalegre em Alferrarede (3-2) e faltavam dois jogos quando o BPA de Ourém empatou com os tais do BES de Abrantes, ficando nós e o BPA igualados no primeiro lugar.

E fomos a Tomar, ao Pavilhão do Sporting de Tomar defrontar os favoritos, lembrando-me de ouvir antes de começar o jogo o Alho dizer ao guarda-redes adversário, Costa Pereira de seu nome: “Oh Costa imagina a jogada: Eu hei-de isolar-me e quando estiver sozinho perante ti, viro-me do costas e hei-de marcar-te de calcanhar”.

O jogo esteve empatado quase o tempo todo e assim terminou, não sem antes “Os Castiços” terem falhado clamorosamente um golo feito, só porque o Alho se isolou, ficou sozinho diante do guarda-redes, virou-se de costas e de calcanhar, falhou o golo.

Mas as promessas fazem-se para se cumprir e ali só faltou o golo, que era o da nossa vitória.

Paciência, o empate sabia a meia vitória, porque no último jogo o BPA de Ourém vinha ao BES de Torres Novas e nós, em Alferrarede, recebíamos os do Totta de Torres Novas. Estávamos em igualdade pontual e tínhamos que vencer por mais de 12 golos de diferença, tal era a vantagem dos de Ourém.

Ao intervalo havia desilusão, porque só ganhávamos por 2 a 1. Tínhamos informações que os do BPA de Tomar estavam, em Torres Novas, a ganhar também por 2 a 1. E a nossa segunda parte foi de loucos, começamos a marcar, a marcar, à “Castiços”, à BFB/BNU, e no final ganhámos por 18 a 1. Chegava e sobrava para sermos os vencedores da nossa zona e sermos apurados campeões regionais. E vejam bem o nosso empenho e a nossa vontade, que até eu marquei o meu golito.

Parámos num restaurante no Entroncamento e festejámos alegremente, bebendo pela taça conquistada e confraternizando com mais colegas que nos iam acompanhando cada vez mais, tal era a fama adquirida.

Depois, na segunda fase, no Cartaxo, perdemos com o BFB de Alenquer, por 2 a 1, mas fomos escandalosamente esquecidos pelo árbitro, que não nos ofereceu pelo menos dois penaltizinhos.

Perdemos, mas a vitória ficou em casa e se bem me lembro o BFB de Alenquer foi o vencedor do torneio a nível nacional.

Foi um ano inesquecível e ao recordá-lo sinto-me de novo com vontade de dar uns toques mas agora as artrites e as artroses levam a melhor aos sonhos de antigamente.

Ao nosso guarda-redes Sequeira, que já partiu, ao técnico Luis Ferreira que se encontra de débil saúde e a todos os outros “Castiços” a minha homenagem pelo êxito alcançado.

Aos colegas que nos acompanharam o nosso castiço obrigado.

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