SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 16 Junho 2021, 12:57

O que é doce nunca me amargou

 

Começo por me confessar um antigo e fiel amante das coisas doces e tive para isso bons princípios quando meu pai me pedia para me debruçar nas tulhas do açúcar para com um martelo ou um maço em madeira tentar destruir os torrões que se iam formando com a humidade. O açúcar vendia-se avulso nas mercearias, adquirido em sacas de 50 kgs. nos armazéns grossistas e os torrões que se formavam eram de todos os tamanhos e eu era assim como um destruidor do guloso produto.

 

Ora enquanto martelava e ia derretendo os torrões de açúcar, tenho que confessar que ia comendo alguns pedaços pois estava mergulhado na tulha e ninguém me via a prevaricar.

           

E como o doce nunca amargou essa era a tarefa que eu mais gostava de fazer na mercearia do Patrício e da D. Emília, no Largo da Rua Nova.

 Nesse tempo e com essa idade dos 6 anos, ninguém pensava na diabetes nem em colesterol e aquilo sabia-me que nem mel.

 

Fosse louro ou branco o açúcar era sempre um bom petisco. Depois, a seguir ao açúcar vieram os bolinhos, feitos com aquela matéria prima, que sempre foram para mim um encanto e não posso deixar de me lembrar da Pastelaria Primorosa, propriedade do senhor Vitor Pinto, e dos seus deliciosos bolos que sua esposa fabricava, em especial os pastéis de nata, de grão e de feijão, não esquecendo nunca mais os “suspiros” que nos faziam entrar no paraíso celestial quando os comíamos.

           

Os meus pais de vez em quando lá me davam uns trocos que chegavam para comprar um bolinho na Primorosa. E recordo a forma como os comia, devagar, devagarinho para os fazer durar e para os saborear na perfeição, pois não sabia quando voltaria a ser presenteado com outro manjar igual. Por fim, recordo as “delícias”, bolinhos redondos e amarelados, que os clientes devoravam com prazer. Esses então, quando os apanhava por feliz acaso, eram pequenos, mas faziam-se crescer e levavam mais tempo a saborear, para parecerem maiores.

           

O café da Pastelaria Primorosa era também uma delícia e é a saudade daquele património tão doce do café com o bolinho, que aqui me trás. Era na Rua Nova de Dentro, num edifício do senhor Abílio Alexandre Inácio, no rés-do-chão onde foi durante anos a sede do Choral Phydellius. E quem não recordará como eu aquele saboroso aroma de café que cheirávamos ao passar ali defronte.

           

Ao lado da Pastelaria havia uma exígua sala de jogos com um bilhar, que servia à maravilha para juntar a rapaziada dos quinze anos para cima, que disputava renhidas partidas a par de umas imperiais bem fresquinhas.

           

Também existiam nessa altura em Torres Novas, a Pastelaria Abidis e a Pastelaria Império.

 A primeira era uma sucursal da Abidis de Santarém, um estabelecimento fino, frequentado por pessoas de um extracto social mais elevado e teve como empregado, de entre outros, o senhor Mário (da Viela), que lhe dava um toque de classe pela sua categoria profissional.

           

A Pastelaria Império da D. Liberta e do senhor Alfredo Pataratas era outra categorizada Pastelaria da nossa cidade, se bem que com uma clientela mais popular. No entanto os seus proprietários, incluindo a mais recente, D. Beatriz, sempre privilegiaram a boa qualidade de produto e do serviço. Realçava-se o bom ambiente entre clientes e gerência.

           

Por estes motivos, quando esses estabelecimentos encerraram as suas portas, deixaram sentimentos de saudade nos torrejanos seus clientes.

           

Presentemente as Pastelarias pululam pela nossa cidade, umas melhores que as outras mas na generalidade com boa clientela e muitas coisas doces e boas, mas a Pastelaria Primorosa, a Pastelaria Abidis e a Pastelaria Império são já a tradição e acompanharam a vida dos jovens do meu tempo e ainda hoje, ao recordarmo-nos delas, nos cresce um pouco a água na boca.

           

Hoje, de tanto gozar, não posso tocar em coisas doces. Mas quem não goza por já ter gozado estará sempre perdoado.

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