SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 18:23

O Natal maroto de 1967

 

Alguma malta do Choral e mais alguns amigos, resolveram numa Noite de Natal ir cantar e tocar a algumas casas de gente mais rica da vila com o intuito de angariar fundos para uma boa jantarada sendo o restante dirigido para as vítimas das inundações, ocorridas em Novembro de 1967.

           

A intenção era boa mas o resultado final em termos monetários foi quase insignificante.

O presépio foi feito numa caixa em madeira e era suportado por duas correias aos ombros do colega Carlos Rosa (Peter).

           

O João Camilo tocava a sua bela concertina, o Gualter Pedro tocava uns acordes natalícios na sua rabeca (violino), o Zé Carlos Governo tocava, salvo erro, ferrinhos e eu estava a cargo da tradicional pandeireta. Penso que o Alcobia mais velho também alinhou.

           

Todos cantávamos razoavelmente, houve um ensaio em plena Praça Cinco de Outubro e lá nos dirigimos para casa do senhor Casimiro Garcia, ali para a Rua das Chãs. O referido senhor ao ver-nos e ao ouvir-nos franqueou-nos a entrada e convidou-nos a sentar na sua enorme e farta mesa da consoada onde tinha a sua grande família reunida.

           

“Quem são eles?” –  Olha aquele é filho do Mário Alves da Câmara e aquele é filho do João Pedro do Grémio da Lavoura, e por aí fora. Parámos de cantar e comemos e bebemos do bom e do melhor, agradecemos mas quase a correr, porque a caminhada ia apenas no princípio, cantámos as tais canções tradicionais e fomos presenteados com uma nota do Banco de Portugal, o que era muito bom para começar.

 

Depois a família Maia com o senhor Manuel Maia dos Santos bem satisfeito por ver ali a rapaziada a quem ofereceu uma velha aguardente de três estalos.

           

Depois cantámos à porta da família Pontes e outras famílias tradicionais que achavam graça aqueles comparsas já com os seus quinze ou dezasseis anos por ali andarem a tocar, a cantar, a comer e a beber e a amealhar umas coroas armados em santinhos.

           

Chegámos depois à casa da família do doutor Sentieiro, ao fundo da Rua da Fábrica, com alguns de nós já com um ligeiro aquecimento vocal e aí meus amigos, fomos recebidos que nem príncipes, sentaram-nos à sua enorme mesa, trataram-nos como se fôssemos da família e foi um prazer ter desfrutado de tamanha honra e de termos sido tratados de uma maneira tão acolhedora.

           

Parecíamos os Reis Magos, gozámos como nababos e ficámos muito bem vistos com as nossas músicas natalícias. Bons rapazes, ouvíamos comentar e a pedir para os necessitados.

           

Para mim foi o fim da aventura, tal eu estava cheio que nem um odre de tanto comer e beberricar. Mas a coisa para alguns dos outros não parava aqui. Faltava ir a outras casas e a coisa só terminaria em casa do senhor Dr. Amora (Augusto Guimarães Amora), que dizia quem sabia, tinha uma garrafeira monumental com bebidas de todo o mundo e de todas as cores e sabores.

           

Lá seguiram os pedintes cantadores de janeiras não sem que antes se combinasse um encontro na Pastelaria Viela, para se fazerem as contas e resolver sobre o destino da massa que sobrasse. E não sei o que se passou nas casas que não visitei nessa noite. O relato e o rescaldo foram feitos no dia seguinte, à noite, no Viela do senhor Mário.

           

E os marotos cantores só elogiavam as pomadas provadas em especial em casa do Dr. Amora, todas de boa qualidade porque todos regressaram a casa pelo seu próprio pé.

           

Contadas as notas, o montante era insignificante e pouco adiantava na ajuda às vítimas, tais as suas necessidades.

           

Alguém sugeriu então um jantar em que todos participassem, sendo convidados a preceito os donos das casas visitadas, que tal como nós ajudariam nas despesas da refeição.

           

Só o Dr. Amora e o Dr. Rainha que o acompanhou responderam à chamada. E se o jantar foi bom a conversa havida sobre as experiências de Coimbra onde ambos foram estudantes tornou aquele serão inesquecível para estes tocadores e cantadores, que o que quiseram foi cantar, tocar, comer e beber, numa marotice que porventura só o Menino Jesus percebeu.

           

Mas Ele desculpou-nos, porque embora marotos vivemos uma bela Noite de Natal no meio de muitos amigos que nos franquearam as portas das suas casas e nos receberam em família de uma forma verdadeiramente cristã.

           

Passados tantos anos é natural que eu me engane nalgum nome ou nalgum pormenor nesta história, mas aqui a deixo para que os mais jovens saibam que há largos anos a malta também curtia a noite e de que maneira.

           

A massa não deu nem para o jantar, mas valeu a intenção.

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