SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 18:08

Rádio Local – As redacções do menino Carlinhos

 

Num programa que a equipa Alfa levava para o ar na Rádio Local de Torres Novas, ainda pirata, aos Sábados das vinte e três até à uma da manhã de Domingo, de seu nome “Sofá Cama”, havia uma rubrica por mim escrita e relatada, que se intitulava “Redacções do Menino Carlinhos”, que procurava, em tom juvenil e com voz de criança reguila, brincar com episódios que na altura se viviam na vila de Torres Novas.

 

Na minha rua, a Rua P de Valverde, hoje Rua do Carreiro da Fonte, alguns funcionários das telecomunicações andaram a fazer montagens subterrâneas de qualquer coisa que metia fios telefónicos, seguramente para melhorar as condições de propagação e recepção das chamadas telefónicas com fios.

           

Para este progresso, tiverem que abrir diversas valas transversais, que deixaram ficar sem alcatrão durante vários meses.

           

Ora eu, que passava todos os dias por ali e sentia os solavancos da viatura nas referidas valas, comecei por escrever algumas redacçõezitas referindo a anomalia, destinadas ao então Presidente da Câmara, Casimiro Gomes Pereira, mas de arranjos, nada.

           

Veio o Inverno, com ele a chuva e a lama, essas valas passaram a ser belas poças de lama, que tudo sujavam para quem, a pé ou de carro as tivesse que transpor. E lá estava eu, Sábado após Sábado a referir a necessidade de reparação do pavimento da referida Rua P de Valverde.

           

Pedir eu pedia, insistir eu insistia, mas nunca ninguém ouvia o menino Carlinhos.

           

Até que foi anunciada a vinda do senhor Primeiro Ministro Aníbal Cavaco Silva a Torres Novas, não sei para que inauguração. Só sei que foi visitar a Zona Alta ou a Escola Primária ou coisa que lhe valha.

           

E eu lembrei-me de fazer-lhe uma redacção, pedindo a sua intervenção no problema. Nessa redacção até consegui que a comitiva de Sua Excelência alterásse o seu percurso e descesse a Rua P de Valverde, para vir para o centro da vIla. E para poupar, pois já nessa época havia o problema da poupança e do défice, a comitiva desceu a minha rua de bicicleta, para dar o exemplo à populaça.

           

Só que, de vala de lama em vala de lama, meteram as rodas da frente das bicicletas numa das valas mesmo defronte da minha varanda e deram um valente trambolhão. Ou seja, em vez do esperado banho de multidão, Suas Excelências levaram foi um valente banho de lama, todos salpicados de castanho, uma verdadeira lástima.

           

Eu, que estava na varanda, fiquei impávido e sereno a assistir à pungente cena, embora cá no íntimo dissesse para os meus botões “Casimiro, Casimiro, eu bem te pedi, eu bem te avisei, agora tens que fazer um fato novo ao senhor primeiro ministro”…

           

A minha prima Zabelinda, estava comigo e como só se ri do mal, riu-se tanto, tanto e tão alto, que de tanto se rir, engoliu as placas dentárias…

           

Só ninguém imagina coitada, o esforço e a dor que ela teve de fazer, para recuperar as ditas próteses, pelas vias normais…

           

A redacção foi lida, com voz de gaiato e com atenção extrema, pois só quando acabei e olhei para os meus colegas da Rádio é que vi que estavam todos fora da cabina a rir a bandeiras despregadas.

           

Não sei se foi pelo banho de lama imaginário, se foi pelo teor da redacção, passado muito pouco tempo lá foram reparadas as valas da minha rua.

           

O pior foram as próteses dentárias da minha prima…

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