SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 20 Junho 2021, 11:02

O meu avô José Santo – As férias em Vila Moreira

 

Era de Vila Moreira concelho de Alcanena e ali residia, o meu avô paterno, de seu nome José Santo, a quem conheci já viúvo em visitas que meu pai fazia àquela terra, para ver o seu pai e a sua irmã Júlia Santo, solteira, que com ele vivia.

 

Ainda me lembro da Rua onde ficava a moradia do meu avô e da casa que tinha uma sala de entrada, um quarto à esquerda de quem entrava, a cozinha, outro quarto interior e um pátio ao ar livre, onde no Verão era costume apanhar o fresco da noite. Tudo de construção singela, sem luxos, com a simplicidade com que viviam na altura as pessoas remediadas.

           

O meu avô era ateu, tal como sucedia a grande parte dos naturais de Vila Moreira (Casais Galegos), terra de republicanos e de vincada influência da classe operária. Era gente do contra, que se diferenciava da sede do concelho, Alcanena, com quem manteve durante largos anos uma grande rivalidade.

           

Tinha quatro filhos da minha avó Lucinda que nunca conheci por ter morrido muito nova. A referida filha Júlia Santo ou Júlia Santa como era conhecida em Vila Moreira, a Maria do Rosário que casou e foi para Angola, o meu tio Manuel Joaquim e o meu pai José Pinheiro.

Os três últimos, após a morte da minha avó, foram acolhidos em casa de Joaquim da Silva Patrício e de sua esposa Emília Patrício, irmã da minha avó.      

 

Desde muito miúdos começaram pois a trabalhar na casa dos tios, em Torres Novas, tendo meu pai segundo me disse, cerca de seis anos quando veio para cá. Maria do Rosário era ajuntadeira de calçado, tal como minha mãe Carminda, de quem era muito amiga. Manuel Joaquim fazia a “volta” na compra e venda de peles e de artigos de sapateiro, percorrendo o centro e norte do país durante muitos anos por conta do tio Joaquim da Silva Patrício, tendo-se mais tarde estabelecido em mercearias e mantendo-se como viajante de peles por conta própria.

 

Meu pai, José Pinheiro, trabalhou desde miúdo na mercearia e em solas e cabedais no Largo da Rua Nova, junto ao marco do correio, e ajudava nas duas Sapatarias que o tio possuía, a Popular no mesmo largo e a Persistente, na Rua da Levada, na esquina da Travessa da Hortelosa.

 

Para além de um bom empregado de balcão, meu pai também era o mecânico da família Patrício e electricista dos vizinhos sempre que necessário fosse e sempre sem ganhar tostão por essas tarefas.

 

Só muito mais tarde, vinte e muitos anos depois de ter vindo para Torres Novas meu pai se estabeleceu em mercearias, miudezas e solas e cabedais, na Rua dos Ferreiros.

           

Meu avô José Santo entretanto adoeceu de uma perna que tinha quase em chaga e passou a residir três meses em casa do meu pai e três meses em casa do meu tio Manuel Joaquim.

           

É dessa altura que recordo o profissionalismo do enfermeiro Alfredo Tolentino, que nos três meses em que o meu avô estava em minha casa, fazia o curativo diariamente, pondo-o no final são que nem um pêro.

           

O meu avô conviveu comigo nesses períodos e era bom homem, tratava-me por “excomungado” tanto era o barulho que eu fazia no sobrado com os bancos da cozinha a servirem de camionetas dos Claras, mesmo por cima do seu quarto. E por vezes, para que o barulho terminasse, pedia-me para vir ter com ele à cama onde estava doente, contando-me histórias da sua juventude, algumas com muito graça que ainda hoje recordo.

           

Numa altura em que regressou a Vila Moreira, meus pais acordaram em mandar-me quinze dias de férias para aquela terra. Nos primeiros dias ainda se aguentou, com o meu avô a levar-me ao barbeiro da terra onde me apresentava aos amigos, orgulhoso do seu neto. Ainda me lembro de um senhor gorducho de seu nome Pulguinhas me chamar “papunça” e eu a refilar. Repetiu a graça e vai daí dei-lhe a resposta:”Papunça é você, que tem a barriga gorda!”.

 

Ao terceiro dia, começou a saudade de Torres Novas, dos pais, dos amigos, da brincadeira. E lembro-me de andar triste todo o dia, e à noite, no tal terraço, chorar e gritar em altos berros: “Ai meu pai, meu grande amigo…se fosses meu amigo vinhas já tirar-me daqui!…

 

Aquilo deve ter incomodado a vizinhança e o que é certo é que aí pelo quinto dia, lá foi o meu pai buscar-me a Vila Moreira e devolver-me à libertinagem.

 

Passados alguns bons anos o meu avô faleceu, de velhice, e se viveu ateu, assim quis morrer. Lembro-me que fui eu quem levou um dos bancos no seu funeral para repousar a urna de vez em quando. E acredito que como era Santo de nome e bom homem, ainda esteja no céu à espera do “excomungado” neto, que tanto barulho lhe fazia no sobrado do primeiro andar.

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