SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 23 Junho 2021, 02:25

O café Central da Golegã

 

(Às sextas-feiras à noite…)

 

Começou a tornar-se um hábito. Depois dos ensaios de sexta-feira, certa rapaziada do Choral Phydellius começou a habituar-se a ir petiscar e matar a sede, primeiro na tasca do Valeriano, depois, não sei por que carga de água, começámos a frequentar o Café Central na Golegã, numa pequena sala reservada, que tinha na parede a cabeça do primeiro touro morto pelo grande matador nacional e goleganense, Manuel dos Santos.

 

O ambiente era castiço e tipicamente ribatejano, propício para se beberem uns bons tintos ou umas frescas imperais, se contarem umas quantas anedotas mais ou menos picantes, se cantarolarem algumas canções em voga e sobretudo, comer-se o célebre “frango assado à Central”, que era uma verdadeira delícia, um autêntico manjar dos Deuses.

 

Era ainda no tempo em que o senhor Brogueira, proprietário do restaurante, era vivo e ali se confraternizava com ele e alguns amigos como o Ricardo Chibanga, o Manuel Barreto, o Carlos Teixeira, o Genito, o Capitão Carvalho e o.Terré Rodrigues, de entre outros, numa tertúlia que nasceu espontâneamente, se cimentou e foi crescendo, ao ponto de não serem só os coralistas machos a estar presentes, começando também a ir as esposas e namoradas de alguns.

 

Entre o bom frango assado e as cantorias, a conversa sobre tudo e sobre nada lá se fazia, transformando essas noites de sexta-feira num convívio imprescindível.

 

Os mais entusiastas eram sem dúvida o José Manuel Cunha, o Zé Calado, o Gualter, o Martinho, o Borralho, o Luis Ribeiro, o José Morte, o Carlos Rosa (Peter) e este humilde escriba que vos conta mais esta história.

 

Nesta Torres Novas de então, às sextas feiras, já noite alta, a maioria das tascas estavam fechadas ou ocupadas pelos habituais amigos do copo e em especial o Zé da Ana estava sempre superlotado e era incapaz de ali caber esta quase dezena de “artistas”.

 

Portanto a Golegã e o Café Central eram o caminho, no Fiat  do Zé Manuel Cunha e noutros bólides que nessa altura se arranjavam.

 

Belas noitadas e belas histórias ali se viveram após os ensaios corais do José Robert, que também alinhava por vezes nestas excursões gastronómicas até à Golegã.

 

Quem me diria a mim que passado pouco tempo, iria trabalhar nove anos na Golegã e foi nessa mesma casa que me habituei a almoçar com os colegas e clientes.

 

A D. Conceição, esposa do senhor Brogueira, lá estava sempre no seu posto, na cozinha, zelando pela qualidade das confecções e pelo esmero do serviço.

 

Os empregados da casa, Daniel, Assírio, António Duarte e Fernando, eram já velhos conhecidos e ainda hoje o são, usando a velha amizade como lema.

 

O Assírio, esse tinha e ainda hoje tem sempre a última anedota pronta a disparar e quando o encontro tenho sempre que ter também a minha “última “ para lhe contar…

O Fernando cresceu e hoje explora no Campo da Feira o Restaurante Lusitanus, com elegância e eficiência.

 

Enfim, ainda nos vamos vendo de vez em quando e nunca ficamos sem um cumprimento.

O Café Central foi assim uma tertúlia torrejana por altura dos anos 60/70, pois era fatal como o destino, às sextas-feiras por volta da meia noite, lá estar a malta para mais um acontecimento copofónico e gastronómico, um verdadeiro ataque aos pobres franganitos, sob a vigilância da cabeça do touro bravo, que mesmo morto e embalsamado ainda incutia respeito a muita gente.

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