SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 18 Junho 2021, 21:45

Da minha janela eu via … Torres Novas

 

Quando eu era menino e moço no início da escola primária, aí por volta de 1954, portava-me naturalmente como um menino, ainda filho único e por isso muito mimado pelos pais, pela minha avó Glória e pelo meu tio João Duarte, que connosco viveu até casar, ainda um bom par de anos.

Com os meus sete anitos, parte do meu tempo era passado à janela, virada para o Largo da Rua Nova, observando quem descia da Rua Actriz Virgínia para a Rua Serpa Pinto (Rua das Freiras) e quem ia e provinha da Rua Nova de Dentro e do Bairro de Valverde.

 

É dessa altura a minha tendência clubística para o Sporting, porque era a época dos cinco violinos, Jesus Correia, Vasques, Peyroteu, Travassos e Albano e mesmo sem os ver jogar, chegavam-me as vitórias que habitualmente conseguia, em especial contra o Benfica. No quarto do meu tio João lá estava bem colocado numa das paredes, um quadro com a fotografia do SCP, já antiga, recordando-me do meu tio ma mostrar, enaltecendo o prestígio dos leões. Dessa foto, recordo o grande Azevedo, o Veríssimo, o Juvenal e o Canário. O meu sportinguismo nunca evitou a grande amizade e respeito por todos aqueles que eram do Benfica, a começar em casa, pelo meu pai, um benfiquista convicto, mas que sempre me perdoou esta minha tendência do contra.

 

A comprovar a minha admiração pelo glorioso Benfica, o facto de, após termos assistido no “Manuel do Café” (estabelecimento que se situou na cave do Restaurante Rogério – hoje Hotel de Torres Novas) , na televisão a preto e branco, à vitória do Benfica sobre o Barcelona por 3-2 em Berna, na final da Taça dos Campeões Europeus, um grupo de amigos nessa noite todos portuguesas e todos do Benfica, percorremos várias ruas da vila, cantando, gritando, chorando de alegria. Ou seja, um sportinguista chorou, de alegria, pelo Benfica.

 

Isto sim, é ser do Sporting !

 

Voltando à meninice, não havia dinheiro para brinquedos, pese embora alguns (poucos) meninos os tivessem, alguns deles adquiridos na casa “Chiado” na Praça 5 de Outubro em Torres Novas. Lá que eram brinquedos bonitos isso eram, que eu bem os via através da montra e apenas com essa visão eu me contentava…

 

Então, brincava com o meu banco de cozinha, de madeira, que deitava no soalho e que fazia andar, aos guinões, imitando as camionetas da empresa Claras que ali passavam à minha rua, e que faziam tcheee, tcheee, tchee. Parecia que espirravam…

 

Para mim, muito miúdo, eras as “Mecas” e pronto…

           

Com a idade de 6 anos, pouco se vinha para a rua brincar com amigos e da minha janela eu via e observava os rapazolas maiores jogarem à noite aos polícias e ladrões, ao lá vai alho, a jogar futebol com uma bola de trapos tendo algumas portas como balizas e outras brincadeiras juvenis que nesse tempo se usavam.

 

Durante o dia lá estava eu à janela, fazendo jogos comigo mesmo, para saber quantos automóveis passavam em cada dez minutos, quantas “Mecas” dos Claras passavam no mesmo período, quais as marcas das viaturas, Chevrolets, Adlers, Volkwagens, Borgwards, as cores de cada um e outras banalidades de quem não tinha mais nada para fazer.

 

Só comparo essa época com os miúdos de hoje e as diferenças em termos de calma e de segurança, pois nesses tais dez minutos havia dias em que não passava carro nenhum… Hoje, é precisamente o contrário, não há minuto nenhum em que não passem carros e mais carros.

 

Nessa época, comecei a ouvir falar dos doutores Alves Vieira e Vinagre, fui operado à garganta e ao nariz pelo doutor Portugal, no consultório do doutor Amora, que se situava frente à que é hoje a Livraria Gil Pais e porta com porta do consultório do doutor Sousa e Faro.

 

E da minha janela habituei-me a ver todos os dias o sargento- enfermeiro Tolentino , o “Fura Buracos” também enfermeiro e dentista, o Basílio Cardante com oficina de pintura de automóveis e comércio de peças, o Amaro sacristão em Santiago, o Arlindo Pessoa de Amorim, solicitador, o “Vinho Verde”e a sua bigodaça,  formado também em bebidas brancas e tintas, o Ezequiel Paiva homem dos cestos de verga, as Carroncas com a sua mercearia na Rua Actriz Virgínia, o Ivo Cabaço e o Cassiano, o primeiro proprietário e o segundo seu empregado sapateiro, o Ferreira (Fera) com lugar de frutas, o Chouriça que era ferreiro precisamente na Rua dos Ferreiros, o sargento Júlio Dourado dono de uma tasca na Rua Nova de Dentro, o Manuel Ferreira merceeiro, o Santos chapeleiro, o Bernardo do Canto, serralheiro, o Faustino Bretes, tanoeiro e carpinteiro, o Joaquim da Silva Patrício dono de mercearia e da Sapataria Popular no Largo da Rua Nova, o Fagundes e o Gonçalves das Finanças, a D.Beatriz Gomes da Silva que dava explicações, o senhor Gerardo, merceeiro no mesmo largo, o Raúl Ferrão e a sua paixão pelo Atlético Clube de Portugal, o senhor Luís Gaspar dentista, o José Valério (Zé da Barroca), sapateiro na Rua de Valverde, o Sargento Santos, enfermeiro, o Heliodoro, correeiro, o velho Calado da Farmácia com o mesmo nome com as suas barbas brancas e o seu empregado, o Santos, que num célebre Cortejo de Oferendas a favor da Misericórdia, conduziu um enorme borrego criado propositadamente para esta oferta da Farmácia.

 

Houve também mulheres muito populares no bairro de Valverde e nas ruas vizinhas, não me podendo esquecer da Maria Videira, peixeira castiça no nosso mercado, da Ana Rosado vendedora no mercado de frutas e legumes e que me deu tantas bananas no regresso do mercado a casa, da D. Emília Patrício, no controlo da sua mercearia, das senhoras Duque, manas professoras e solteiras com o seu porte fidalgo e altivo, moradoras na Rua dos Ferreiros, da D.Natividade enfermeira-parteira, da D. Hermínia Moura na sua padaria e da Alma Aflita, vendedora de carvão e petróleo na Travessa da Regueira de Água, de entre muitas outras.

 

Nessa época havia uma carroça que vendia água da barreta em bilhas, propriedade do senhor David, mais conhecido pelo Davis da água.

 

Figura também muito habitual e anónima era a do amolador, que transportado numa bicicleta devidamente apetrechada com roda de amolar, se anunciava com a sua gaita de beiços num toque peculiar, e que gritava “amolam-se facas e tesouras, arranjam-se chapéus de chuva…põem-se gatos em tachos e panelas”…e o povo do bairro, que não era rico, acorria em número considerável. Nunca mais ouvi nenhum e isso deixa-me muita saudade…

 

Da minha janela portanto eu via muita gente, que nessa altura não julgava ter tanta importância para mim, porque foi um desfilar de profissões, de feitios e sensibilidades, que ajudaram a fazer-me compreender esta vila de então, as suas particularidades, os seus usos e costumes, a sua alma.

 

Da minha janela eu via tanta coisa linda que me apaixonei pela minha terra.

 

Da minha janela eu vi sempre Torres Novas como a mais bela, a terra que me viu nascer, a mais formosa terra do mundo.

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