SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 16 Junho 2021, 23:49

Coisas de Finalistas do Andrade Corvo. Onde é que estaria o bolo?

 

Corria o ano de 1958 e um grupo de finalistas do Colégio Andrade Corvo, ali na Avenida Marginal, entendeu por bem fazer uma festa de finalistas a rigor, que terminava com um grandioso espectáculo no Cine Teatro Virgínia, recém inaugurado.

Para os mais novos relembro que o colégio era só para rapazes. Raparigas, só em sonho nessa altura.

           

O espectáculo foi idealizado, os finalistas de então tomaram a coisa a peito e lembro-me de que de entre eles e eram muitos, faziam parte o António Mário Lopes dos Santos, o José Alberto Marques, o Joaquim Pereira Henriques, o Luis Ferreira, o Jorge Abreu, o Carvalheiro de entre outros, que de momento não recordo.

           

Havia vários quadros e o espectáculo tinha tudo para ser um enorme êxito ou uma enorme barracada, como constava no programa.

           

Havia cenas de teatro de revista, com um exame em que entrava um par de namorados, que eram, o José Alberto Marques o aluno e a namorada, bem despida à época, que era nem mais nem menos que o Luis Ferreira.

 

Essa rábula fazia rir até às lágrimas, tanta a ternura e enlevo desse par de namorados. E lembro-me que “ela”preocupada com o exame do namorado, lhe perguntava em tom aflito:

“Querido, levas a caneta ??”…

           

Havia também um quarteto vocal, graças a Deus bem desafinado por sinal, que era ensaiado no Teatro Virgínia velho, ali ao Largo do Paço, pelo músico Abel de Sá, que foi contratado para a parte musical de toda aquela balbúrdia…E recordo as canseiras diárias para afinar as quatro vozes, do Nicolau, do António Mário, do Jorge Abreu e do Pereira Henriques. Aquilo era um suplício para o Sá e para quem assistia aos ensaios.

 

Certa tarde, o Director do Colégio, Dr. Albino acompanhado por sua esposa D.Rosa, foram muito silenciosamente assistir a um ensaio. O pobre do Sá, que via muito mal não se apercebeu da sua presença e perante tanta desafinação do quarteto, na canção “Vocês sabem lá”, atirou para o ar um enorme palavrão que os senhores professores ouviram…e calaram.

 

Alguém de seguida avisou o Sá da sua presença e o homem, com o seu habitual passo miudinho e acelerado, foi lá para trás da sala e só dizia: Estes gajos matam-me! Não aguento…

           

Havia teatro mudo, só mímica ao estilo de  Marcel Marceau, em que apenas o cão que o Fanha levava pela trela quebrou o silêncio, ladrando alto e bom som para gádio dos espectadores.  

Também havia um número de halterofilismo, em que alguns atletas se esforçavam para suportar pesos elevados…quando, após os aplausos o Fininho apareceu e levou todos os alteres debaixo do braço…Eram de esferovite…

           

Eu fui convidado a cantar o tal “beijo que não custava nada” e um fadinho e o Carlos Manuel (Necas) foi substituir o convidado Elvis Presley que não compareceu à última da hora, cantando com um lustroso blusão vermelho o “Rock around the clock”.

           

E perguntarão os leitores onde é que entra o bolo, que titula esta história? A rapaziada quis homenagear de forma satírica a D. Maria de Lurdes Modesto e toca de levar para o palco uma grande televisão feita em madeira e papel de cenário. Por detrás dela, o cozinheiro mor, trajando a rigor, mais precisamente o Jorge Marques de Abreu lá ia debitando a receita do bolo.

 

Que levava açúcar, que deitava para o lixo, farinha, que deitava fora, cenoura, cuja casca entrava no tacho mas o miolo deitava-se fora, os ovos, que eram partidos e metidos no mesmo tacho, com cascas e tudo… Mexia-se bem, punha-se tudo no forno durante algum tempo e no final, saía uma grande e bonito bolo, que a D. Joaninha, mãe do Luis Ferreira, tinha confeccionado de propósito para a malta toda comer.

           

Esta cena, tal como as outras foi muito aplaudida. O espectáculo acabou e a crítica foi muito elogiosa. No final, a malta corre para o forno, para comer o bolo, mas…o dito não estava lá. Procurou-se, procurou-se e chegados ao segundo andar, num camarim, fomos dar com o Abel de Sá e o Luis Ferreira, já só com uns restos do bonito bolo, que já tinham comido. Tudo, diziam, acompanhado com um belo vinho do Porto que até estalava e já produzira alguns efeitos.

           

Resta acrescentar que a mim, pelo menos, antes de atacarem o bolo, tiveram a gentileza de me dar uma boa fatia. Come e cala-te. E assim foi até hoje.

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