SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 19 Junho 2021, 16:33

João Pereira (Virolas) – A esplanada no jardim e a malta do Colégio

 

Se existiu figura popular e castiça, homem de trabalho e comerciante escrupuloso, figura humilde e educada, prazenteira e afável, essa foi sem dúvida a do senhor João Virolas, que explorou durante muitos anos a esplanada do nosso jardim.

 

Conhecido pela rapaziada do Colégio de Andrade Corvo por John Spring (João Primavera), dele se contam ainda hoje muitas histórias anedóticas, muitas delas não verídicas, mas quem como eu e a malta do meu tempo com ele privou e naquela esplanada passou largas horas da juventude, não o pode esquecer com facilidade. Homem alto, quase sempre vestindo camisa com os seus inseparáveis suspensórios, tinha o condão de receber bem os seus clientes, independentemente da sua origem ou idade. Gostava muito de conviver e naquele tempo, por altura dos anos cinquenta, não lhe faltava público no jardim, pois da Primavera ao Verão aquele era o local habitual de reunião nocturna de muitas famílias da nossa terra, que ali iam passear e conviver, às centenas, após cada dia de trabalho.

           

Naquela esplanada, que não era mais que um toldo, passei muito tempo a estudar desde as primeiras horas da manhã, vendo muitas vezes o sol nascer, sobretudo quando se aproximava a época dos exames. A malta tinha que estudar e como apetecia mais brincar nas tardes após as aulas, combinavam-se encontros madrugadores na esplanada do senhor Virolas, em grupos de cinco ou seis e fumando os nossos primeiros cigarritos para aquecer as mãos e o corpo, já que o tampo das mesas era em mármore e gelavam-nos os ossos. O local era apropriado também para alguns namoricos e para deliciar a vista, pois por ali passavam as moçoilas da Formação Feminina da Escola Industrial. Ou seja, juntava-se o útil ao agradável.

           

Voltando ao senhor Virolas, ele foi muitas vezes vítima das partidas e traquinices da estudantada, que o tentava arreliar. E recordo uma tarde de Verão, das mais quentes que se possam imaginar, em que um estudante já com barbas, resolveu escrever nos dísticos “Há Cerveja a Copo”, a palavra “Não”, ou seja, a informação que o amigo João pretendia dar aos clientes, foi alterada para “Não Há Cerveja a Copo”. E era vê-lo intranquilo, estupefacto, a comentar a sua estranheza por nessa tarde tão quente, não ter vendido até àquela hora, nem sequer uma imperial…Só quando alguém o chamou à atenção para os dísticos de “Não Há Cerveja a Copo” é que despertou e, soltando uma forte gargalhada apenas disse: “Esta rapaziada do Colégio, só me estraga o negócio”!

           

Por vezes tinha os seus lapsos, que a malta não perdoava. Recorda-se uma altura em que havia umas pequenas obras no telhado do bar, e quem lá estava em cima era o seu empregado Adriano. De repente, ouve-se o senhor João a dizer: “Indriano, quantos homens estão aí em cima?- Três, senhor João! responde o inquirido.- “Olha, manda já metade cá para baixo, que tenho muitos clientes para atender.

           

Noutra altura, em final de tarde, estava o senhor João sentado à mesa com os distintos mestres-escola, Figueiredo, Oliveira e Silva Paiva em amena cavaqueira, saboreando umas belas cervejas e o habitual tremoço, quando sugeriu nova rodada, citando o primor daquela cerveja tirada por sí, ele que muito se orgulhava do seu diploma de tirador de cerveja. E assim foi, tiradas as quatro cervejolas, distribuiu-as pelos convivas e sugeriu um brinde…Copo acima, copo abaixo, copo na mesa de mármore e zás… o copo do senhor Virolas ao bater na mesa, partiu-se pela base, tendo

provocado uma inundação de cerveja quer na mesa, quer no seu colo. A gargalhada foi geral mas a humildade e educação sempre saíram vencedoras, nesta como em muitas ocasiões.

           

Certa noite chega à esplanada o Capitão Stoffel, oficial da antiga e saudosa Escola Prática de Cavalaria, sentou-se ao seu lado, disse-lhe que queria tabaco e o senhor João com voz forte e bem timbrada, na ânsia de bem servir grita: “Indriano, um maço de tabaco Português Suavel, para o senhor Capitão Stoff !!!”.

           

E termino com a história que se conta, mas que não garanto ter sido real, daquela senhora que se chega ao balcão, muito aflita e pediu um WC, coisa que ainda hoje não existe naquele estabelecimento. O senhor João não ouviu bem e pediu à senhora que repetisse o que desejava. Um WC se faz favor…

 

O senhor Virolas voltou-se para a prateleira das garrafas, mirou, voltou a mirar e respondeu: “Olha minha senhora, WC,WC, não temos, mas temos ali uma ginjinha, que faz os mesmos efeitos!”. E era assim o homem que hoje quero aqui recordar. Pese embora os lapsos que lhe eram atribuídos, foi sempre e acima de tudo, um torrejano de corpo e alma, amigo do seu amigo e das coisas da nossa terra, merecedor desta pequena mas singela nota, por fazer parte da memória de muitas centenas de alunos do Colégio da avenida, que ali encontraram um amigo para toda a vida.

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