SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 22 Junho 2021, 00:26

Aconteceu em Aveiro

 

Andava o Torres Novas na segunda divisão nacional, e fomos jogar a Aveiro, com o Beira Mar, que tinha uma senhora equipa, se bem que nesse ano o Desportivo batia o pé a qualquer adversário.

 

Calhou inscrever-me numa excursão e aí vamos cerca de cinquenta adeptos rumo à Veneza portuguesa, para passear, conhecer Aveiro e à tarde ir puxar pelos Amarelos, até cansar. Perguntámos a alguém onde se comia bem, e lá nos indicaram que era perto do centro, num restaurante moderno para a época e de certa classe. Vimos a ementa e claro que a maioria foi para um ensopado de enguias, que atacámos de imediato e que nos soube muito bem.

 

A conta, bem a conta foi normal, nem pouco nem muito, digamos que a contento da rapaziada. E lá fomos para o jogo. O guarda-redes do Beira Mar era nem mais nem menos que o famoso internacional e magriço José Pereira, que se tinha transferido nessa época do Belenenses para Aveiro.

 

A massa apoiante dos amarelos estava em grande minoria, colocada no topo sul, por detrás da baliza. Mesmo assim gritava-se bem  e eu em especial, que quando vou ao futebol perco um pouco as estribeiras, puxava pelos amarelos que nem um desalmado. Mesmo atrás da baliza do Beira Mar, reparei num sujeito vestido com um sobretudo escuro e olhar para mim, de cada vez que eu chamava e incentivava o Florival, o Gamboa e todos os outros jogadores do Desportivo. Para desmoralizar, eu ia gritando “Amarelos, Amarelos, Eles não jogam nada, o Zé Pereira é um furo”, para além de outras barbaridades… E o tal sujeito lá me fitava de longe, que eu e alguns torrejanos estávamos na parte de cima da encosta e ele estava em baixo junto à baliza.

 

Eis senão quando o Torres Novas marcou um golo. Delirei de alegria e saudei a situação efusivamente. O referido aveirense barafustava, olhava para mim, gesticulava e vai daí, começa a subir a encosta e a caminhar na minha direcção. Olá, vem aí vendaval pela certa, pensei eu, pedindo desde logo a ajuda de dois ou três e preparando o meu chapéu de chuva, que podia ser preciso utilizar para outros fins que não a chuva, pois até estava uma bela tarde de sol.

 

O homem com idade para ser meu pai, aproximou-se mais e mais e eu mais a postos fiquei, com o chapéu de chuva em riste, para ser o primeiro a atacar em caso de agressão. O sujeito abre os braços, parou, e só disse: “Ora aqui está alguém que puxa pelas suas cores, que não desiste de incentivar a sua equipa. Venho dar-lhe os parabéns, meu amigo, pois você é o exemplo para esta cambada de aveirenses, sempre calados, sempre mudos no apoio ao Beira Mar”…

           

Travei, ouvi, calei e baixei a guarda…(Ou seja o chapéu de chuva). Cumprimentei-o e não lhe disse mas pensei, o quão perto ele esteve de levar uma valente chapelada… O resultado final foi um empate a uma bola.

           

Como moral desta história o facto de “nem tudo o que parece é”. E continuarei até poder a gritar sempre: “Amarelos, Amarelos”. Está-me na massa do sangue.

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