SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 17:44

Luis Tomba – o meu eterno herói

 

A minha meninice foi extremamente feliz, porque tinha uma família numerosa, com muitos primos e primas e muitos amigos e amigas com quem brincava quase todos os dias. Os meus pais, que Deus os abençoe, sempre me deram liberdade, se bem que com a devida responsabilidade.

 

A minha irmã Glória nasceu já eu tinha nove anos e portanto não podia entrar nestas brincadeiras. Meus primos gémeos, João e Joaquim, filhos do meu tio Manuel, que era mestre na Colónia Penal de Sintra, vinham de férias para minha casa todos os verões e aproveitávamos bem o tempo para as brincadeiras de rua. Na Rua de Santiago era comum reunirmos a rapaziada, e lá estavam quase sempre o João Julião, o Carvalho, o João Luis, o Lavos, o João Manuel, o Fernando Moura e o João Artur, para praticar desporto, nomeadamente as corridas a pé e de bicicleta e algumas jogatanas em improvisados estádios, como o Largo do Terreiro da Cruz (Mário Alturas) e o adro da Igreja de Santiago.

   

À noite, juntavam-se amigos mais velhos e jogávamos aos polícias e ladrões, pelas ruas estreitas dos Bairros de Valverde e de Santiago e no Largo da Rua Nova, havendo noites em que aparecia a polícia e lá nos subtraía umas bolas que tanto jeito nos faziam. Jogava-se ao “lá vai alho” e os mais fortes ganhavam quase sempre. Era do tempo do José Sardinha, do Lavos, do Manuel Sardinha Bairrada, do Carlos, do José Craveiro e do Dinis, todos moradores daquelas zonas. Também se juntavam ao grupo algumas raparigas como as Palmeiras, as Duques e outras. Nesse tempo ainda não havia computadores e muito menos telemóveis, a televisão era um raro luxo e então a malta vingava-se e bem a brincar até fartar.

           

Nas férias eu tinha o privilégio de ir também brincar para o quintal da casa do tio de meu pai, Joaquim da Silva Patrício, na Calçada António Nunes, junto à fonte, com os meus primos João, Maria Celeste, Adelaide e Maria João Ceboleiro, Milita, Joaquim Alberto e José Manuel Patrício, netos do senhor Patrício para já não falar dos filhos da Dra. Otília, de S. João da Madeira, o Tó, o Zé, a Teresa e o João, que todos os verões aqui vinham passar férias a casa dos avós. Ali havia um jardim da casa, com uma pequeno lago com peixes vermelhos, a garagem do Adler e da Fordson e o barracão dos animais.

 

Para cima até ao denominado Bairro dos Pobres, haviam várias árvores de fruto, desde as belas uvas a magníficas laranjas e tangerinas, não esquecendo as ameixas amarelas e roxas e as nêsperas, que de tanto se comerem por vezes causavam certas indisposições intestinais. Lá existiam ainda um tanque cheio de rãs, um poço com bastante água e um caramanchão, onde nos sentávamos à sombra a descansar. Havia ainda a fazenda propriamente dita, na encosta a caminho do Carreiro da Fonte, onde predominavam os belos pêssegos, alperces, abrunhos e figos, que apanhávamos e comíamos, aí sim directamente das árvores, o seu verdadeiro produtor. Era limpinho e sem intermediários.

           

Foi numa dessas tardes, que após tanta brincadeira, toda a gente saiu de casa e se esqueceram de mim, deixando-me sozinho ali dentro do quintal, bem fechado pelo grande portão que ali existia.

Eu era pequeno de mais para uns muros e um portão tão altos. Seriam pouco mais de cinco da tarde e eu comecei a chorar e a pedir ajuda sempre que ouvia alguém passar na Calçada para cima ou para baixo. Nessas alturas chorava alto e gritava, mas nada, ninguém me valia. Eu já começava a desesperar, quando alguém parou, do lado de fora e me perguntou o que se passava. Pedi-lhe para me tirar dali por favor e o homem saltou o muro e ajudou-me a ser livre. Na altura disse-lhe obrigado, mas durante toda a minha vida ela foi e ainda é, o meu herói. De seu nome Luis Tomba, morador que foi muitos anos na Rua de Valverde, numa casa que dava, nas traseiras, para a Travessa da Enfermaria Militar, na altura e para a malta, a Travessa do Tomba, que escolhíamos para campo de futebol, apesar da sua estreiteza. Era um homem reinadio e brincalhão dizendo-nos sempre uma piada, quando do regresso do trabalho, na sua bicicleta.

           

E aquela travessa será sempre para mim a travessa do meu herói, a Travessa do Tomba, em homenagem singela dum puto a quem ele deu a liberdade.

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