SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 22 Junho 2021, 00:37

Cabeças prodigiosas do Clotário e do João Manuel

 

Após um exame no Liceu Sá da Bandeira em Santarém, salvo erro de uma cadeira do antigo quinto ano, eu e o meu amigo Clotário pretendíamos regressar a Torres Novas e só faltava escolher o meio de transporte. Escolheu-se a boleia, mais barato e mais rápido e lá começámos a descer a Calçada do Monte a pé, até chegarmos a uma recta no final da descida. Começou então o Clotário a dizer-me que só apanharia boleia num carro preto e que fosse de um modelo moderno e de facto começamos a recusar por sistema os carros de outras cores e de marcas mais fora de moda.

 

Alguns destes carros vinham para Torres Novas pois eu conhecia as pessoas, mas comecei a ficar aparvalhado, quando o Clotário, muito ao longe, dizia o número da matrícula e o nome do proprietário, sem que a mesma fosse vista àquela distância e para mais ele que usava lentes muito graduadas. “ Ali vem o carro de fulano de tal, da marca tal, mas não interessa porque é azul…” Depois, ao longe dizia novo número de matricula e o proprietário, que eu atónito confirmava quando o carro passava… E assim sucessivamente, começando eu a desconfiar de mim mesmo, da minha inteligência, da minha sanidade mental.

 

Ora essa, então eu estou cá neste mundo ou num manicómio? Até que o Clotário, ao ver um carro preto bem ao longe, disse: O que aí vem pertence ao Freitas dos vinhos, tem a marca tal e a matrícula tal e tal. É preto, vamos ver se ele nos leva. E era o Freitas dos vinhos, o carro era da marca referida e tinha a matrícula que o mágico Clotário tinha, sem ver, garantido…E o senhor lá nos trouxe. Eu coçava a cabeça, beliscava-me para ver se estava acordado. Com uma cabeça como a do Tarinho, a minha prova devia ter uma bela negativa… E chegámos a Torres Novas, cerca das 15 horas, agradecemos ao senhor Freitas e saímos, junto à Pastelaria Abidis, onde se encontrava um bom grupo de amigos e colegas da estudantada.

           

Como correu o exame (?), dá para ir à oral (?), enfim as perguntas do costume.

E foi aí que eu tive que descarregar a minha admiração pela clarividência do Clotário, que sabia as matrículas todas do concelho de Torres Novas e arredores.

           

Logo ali entrou na conversa o João Manuel Dâmaso (O João da Avó), rapaz que eu sabia já possuidor de uma memória prodigiosa, ao ponto de decorar as páginas dos livros de estudo, e quando respondia dizia a linha, o período e o parágrafo da matéria. Logo ali disse que quem sabia de matrículas era ele e não o Clotário. E dirigindo-se ao Tarinho perguntou-lhe sobre dezenas de matrículas e de marcas dos carros novos dos senhores fulano e sicrano, ao que o Clotário respondia, replicando também com mais perguntas ao João Manuel, que ainda com mais precisão e rapidez lhe respondia com as matrículas, marcas e proprietários penso que correctos. Chegaram ao ponto de perguntarem por carros comprados na véspera…

           

Se eu vinha fraco da cabeça calcule-se como fiquei. Completamente baralhado e aparvalhado. Foi dose dupla. Estariam a gozar comigo? Fui para casa descansar, para ver se a crise me passava. Já me tinha dado para muitas coisas mas para decorar marcas, matrículas e os nomes dos donos dos carros, isso nunca minha Nossa Senhora.

           

Acreditem se quiserem, eu continuo a não acreditar em bruxas, mas que as há, há!

E esta hein?

 

 

 

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