SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 23 Junho 2021, 12:39

A Feira de Março em Torres Novas

 

Desde muito novo me recordo da Feira de Março em Torres Novas, ainda do tempo em que ela se realizava no Largo do Rossio do Carmo, defronte do antigo Hospital, no início da década de cinquenta. Dessa altura, só me lembro de ali ser levado por meus pais, de espreitar as barracas de brinquedos e de artigos diversos, e ainda de ir ver um jogador de futebol, de raça negra ou pintado de preto, de uma envergadura invulgar, a defender numa baliza os chutos que os concorrentes rematavam. Isto passava-se salvo erro no espaço fronteiro à Vila Pinho, até onde a feira se estendia.

           

Meus pais aproveitavam esta deslocação para visitar a minha tia Soledade e o meu tio Cotovio, que moravam nas Tufeiras, defronte do Pátio do Carreira ao mesmo tempo que matavam saudades dos seus vizinhos, pois residiram na Rua Comandante Ilharco onde eu nasci, em 1947, num pátio que tem acesso por um arco e onde residiu o meu amigo e saudoso Sargento Souto, mesmo abaixo da casa do senhor João Farinha Cordeiro.

 

Com um ano de idade, eu, tufeirense de gema, passei-me com os meus pais para o número 6 da Rua de Valverde, para um casarão enorme, onde tinha vivido a família de Joaquim da Silva Patrício. Desde essa altura só me lembro da Feira de Março no Largo do Rossio de S. Sebastião, muitas vezes com circo, muitas barracas de loiças e bugigangas, barracas de tiro, saltimbancos e malabaristas, barracas de matraquilhos, o carro do tiro e pista de carros de choque, carroucel, aviões, poço da morte, ciganas a lerem a sina na palma da mão de quem o desejásse, e algumas tômbolas com roletas que sorteavam desde balões a serviços de copos, balanças e panelas de pressão para a cozinha, a preços módicos cada número, 1$00 à época (cerca de 50 cêntimos de hoje) e que alegravam quem tinha a sorte de ser premiado.

           

Para a miudagem as barracas de brinquedos de lata e de madeira, os jogos de futebol redondos com espelhos do outro lado, os peões e as baraças, os arcos em gancheta com punho de madeira, os balões a par de outras brincadeiras, eram o nosso encanto. Também já nessa altura havia as barracas de farturas e a Barraca do torrejano Pina lá estava há muitos e muitos anos. O algodão doce, o torrão de alicante e as pipocas marcavam sempre presença.

           

Para os mais pobres, umas simples cornetas já faziam barulho e uns iô-iôs bem manejados eram a nossa alegria. E quem não se lembra das bolas de serradura, cobertas de prata e fitas multicores, que continham um elástico e que a pequenada lançava de uns para outros? Aquilo durava até rebentar, mas que era giro, lá isso era. Havia ainda as barracas dos comes e bebes onde muita gente jantava e petiscava, pairando no ar um forte cheiro a fritos e a assados dos frangos e das febras e da bela sardinha assada. Os sons musicais da feira e sobretudo a tradição, levavam que as pessoas da parte baixa da vila se deslocássem como em procissão até à Feira de Março, atraídos pelo evento e à procura de novidades e de divertimento. Era um salutar hábito, em que muitos namorados ali marcavam os seus encontros, em especial nos tempos em que havia magalas em Torres Novas. E para cada sopeira havia sempre o seu magala.

           

Também me recordo de um jogo em que se tinha de rematar uma bola de futebol e saber enfiá-la, num chuto e à primeira num buraco pouco maior que o seu perímetro. E num final de tarde ali estive, embevecido, a ver o nosso José Torres a chutar e a metê-las quase todas no buraco, para desespero do proprietário do jogo, que só via os prémios a desaparecer e a vida andar para trás. Pouco tempo depois, o Bom Gigante descansou o homem e não quis os prémios a que tinha direito. E logo outros artistas da bola se seguiam com tal pontaria que mais pareciam ter de ir à consulta do oculista.

           

Os tempos foram passando, as coisas foram mudando e a vida passou a ser diferente de ano para ano, de geração em geração. Teimosamente e salutarmente a Feira tem continuado, em locais diferentes, de moldes diferentes, certamente ao gosto dos jovens actuais. E acreditem, ainda hoje não perdi o hábito de ir à Feira de Março, quanto mais não seja para comer a minha fartura e relembrar o ambiente festivo.

           

Aqui ficam a saudade e alguns apontamentos do que era, na minha meninice a nossa Feira de Março.

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