SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 20 Junho 2021, 16:17

Um beijo não custa nada, ou a canção da minha meninice

 

Não era mais que um título de uma canção interpretada por Artur Ribeiro (canconetista muito popular nessa altura) mas que o meu amigo Abel de Sá me ensinou a cantar, tinha eu aí por volta dos dez anitos. O Abel era, como ainda muita gente se lembrará, um músico de excepção, tocando acordeão e piano como na altura poucos o faziam. Ele era a alma do então Conjunto Niger e na preparação das Festas de Santo António, já lá irão cinquenta e três anos, lá me escolheu a canção “Um beijo não custa nada, não custa nada” e para além de me ensinar a entoação ensinou-me a fazer gestos à medida que eu ia cantando a letra.            

 

Pediu-me para começar com um ar ingénuo e maroto, ao dizer que um beijo não custava nada, “Dê-me um, que eu não digo nada, eu não digo nada”, depois…” é só encostar sua boca à minha…”por fim, limpa-se o baton, nada se adivinha… verá que desejará, repetir o gesto, pois o beijo é conta, que não deixa resto…” e aqui já toda assistência sorria e aplaudia, porque a canção interpretada por um miúdo de dez anos, de calções ainda por cima, devia ser muito engraçada, num tempo em que se namorava da rua para a janela, em que um par de namorados de mão dada era um gesto muito atrevido para a época.

 

Para os jovens que hoje tenham a paciência de me ler, namorar era gostoso tal como hoje, sobretudo porque era quase sempre às escondidas e sem autorização dos pais, o que nos dava maior prazer, porque era como que um fruto escondido, ainda hoje o mais apetecido.

           

Imagina-se pois a lata do puto, que era eu, a cantar: “Fique descansada, que eu não digo nada creia na promessa… aproveite agora, venha cá depressa!” e choviam os pedidos de bis que impunham a repetição, quase sempre em todos os palcos que eu pisava. Foi assim nas Festas de Santo António, nas verbenas do Salvador, no Castelo de Ourém e nas Festas de Alcanena pelo menos. E era de tal forma que, apesar de querer variar as canções que iria cantar, era fatal, lá vinha o pedido:” Canta o beijo, canta o beijo…e que remédio tinha eu se não cantar e repetir.”

           

E até no saudoso Salão do Salvador, a seco, sem música, numa festa da catequese, o público pediu o tal beijo…O pior é que o senhor Vigário da Vara, Padre João Rodrigues Bento, ao aperceber-se da letra e sobretudo dos gestos, subiu ao lado do palco a mandar-me calar, de forma insistente…

           

Resta dizer que aguentei até ao fim e não me calei, mas não me livrei do vicarial ralhete. Aqueles gestos e sobretudo aquelas palavras eram um convite ao pecado, disse-me. Mas vá lá, perdoou-me logo a seguir com um sorriso de orelha a orelha.

           

E o tal “beijo” tinha que acabar, pois eu, confesso, já começava a estar farto, porque comecei a crescer, a usar calças e a graça do poema e dos gestos já não era a mesma. E acabou de vez, no Teatro de Mira de Aire a abarrotar, aquilo saiu-me mal pela primeira vez. Esqueci-me da letra e foi um desastre. Daquela vez, já ninguém me pediu para bisar.

           

Até que enfim a coisa terminou, porque isso de beijos e abraços preferi sempre dá-los que cantá-los.

3 thoughts on “Um beijo não custa nada, ou a canção da minha meninice

  1. belos tempo de menino quando, no arraial do SENHOR DOS ENFERMOS, em Macieira, Fornelos, Cinfães, veio uma pista de carros eléctricos, um carrocel e uma roda de cestas de diversão e punham nos altofalantes da altura, os «funis« esta música «UM BEIJO NÃO CUSTA NADA …« Já lá vão sessenta anos.

  2. belos tempo de menino quando, no arraial do SENHOR DOS ENFERMOS, em Macieira, Fornelos, Cinfães, veio uma pista de carros eléctricos, um carrocel e uma roda de cestas de diversão e punham nos altofalantes da altura, os «funis«, esta música «UM BEIJO NÃO CUSTA NADA …« Já lá vão sessenta anos.

  3. Caro amigo por acasso nao tem essa gravacao? nao ha maneira de a encontrar pois faco muito gosto de a ter
    Desde ja o meu obrigado
    Abracos
    Alberto

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