SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 20 Junho 2021, 17:47

Na António Alves – (Quase a ser saneado)

 

Corria o ano de 1973, quando fui admitido na firma António Alves & Filhos, Sucessores, Lda., vindo da Sociedade de Construções Valura, Lda., do Entroncamento. Vim porque era mais perto e na altura ainda não tinha carro e porque vinha ganhar um pouco mais. Falei com o patrão, acordámos as condições e entrei, salvo erro em Setembro de 1973, ainda antes da revolução dos cravos. Devo este ingresso ao meu tio Carlos Neves, que foi quem junto do senhor Alves indagou dessa possibilidade.

           

A função para que vim destinado era a de tradutor de francês e inglês para português, de revistas de lanifícios internacionais em que colhia as cotações dos mercados mundiais e também de faxes, remetidos de todo o mundo, desde a Nova Zelândia e Austrália, passando pela África do Sul, Suécia, França e Estados Unidos. Tinha que os traduzir e de imediato apresentá-los ao patrão, que depois de os analisar me chamava para dar as respectivas respostas no que se refere aos faxes.

           

O escritório tinha, se bem me recordo, oito colegas, era chefiado pelo senhor António de Almeida Santos e o movimento estava bem distribuído por cada um de nós. Entretanto, para além das traduções, comecei por fazer de caixa-tesoureiro durante três semanas, nas férias do titular, Vítor Carriche, com a elaboração completa dos vencimentos dos quase trezentos empregados da fábrica, tarefa nada fácil para quem vinha de fora e estava muito “verde” naquelas funções de responsabilidade, mas tudo passou e ao que penso com sinal positivo, pois de imediato o Sr. Alves me destinou outra missão profissional, a de efectuar todas as compras da cantina e de controlar os custos e os proveitos da mesma. E lá assumi essa tarefa, também nada fácil.

           

Para além desse serviço, o patrão foi-me incumbindo de começar a fazer “amostras” de lãs e de penteados, de controlar e assessorar a carpintaria e a oficina mecânica, de acompanhar das necessidades da lavagem de lãs, da penteação, do controlo das compras de peles em verde efectuadas pelos vários empregados compradores, do fabrico de peles finas e camurças, da fábrica de luvas, dos adubos e da gelatina animal, mais conhecida por grude em placa ou em pó, sendo esta última a actividade que maiores lucros dava nessa altura, fornecendo de grude a maioria das corticeiras nacionais e em grande parte exportando em boa escala para a Suécia, França e Estados Unidos.

 

Para que eu não “adormecesse”, ainda tinha a tarefa de “fiel de armazém” de luvas, peles finas e carneiras… A tudo fui dizendo que sim, porque era mais novo e porque o patrão tinha confiança em mim e no meu trabalho diário. Os meses foram passando, e o patrão não esperou que eu lhe pedisse aumento. Podia ter todos os defeitos, e tinha bastantes, mas em menos de um ano, aumentou o meu salário para o dobro e isso servia-me de estímulo.

 

Era, após o 25 de Abril de 1974, o encarregado geral da fábrica, com 27 anos de idade e na ausência do patrão havia ordens para que fosse eu a tomar todas as decisões. Sem pretender o auto elogio, penso que na maioria dos trezentos operários eu era aceite como um colega e um amigo, que embora mais novo assumia uma posição de maior responsabilidade e poucas foram as vezes em que tive problemas de relacionamento ou qualquer situação mais difícil de resolver. Como costumo dizer, a Fábrica António Alves foi a minha Universidade.

           

Depois, vieram os oito despedimentos. Depois a recusa do patrão em retroceder. E… deu-se a primeira paralização geral. Lembro-me que, a seu pedido, o acompanhei numa ronda que fez, corajosamente, por todas as secções, com a fábrica toda parada. Pouco falou que me lembre, mas o seu estado de nervos bem mostrava a sua indignação. Também não houve um só operário que contra ele se manifestasse. É então que um dirigente do Sindicato dos Têxteis aparece na fábrica e marca uma reunião geral de trabalhadores, a efectuar no refeitório da empresa, a meio da tarde. O patrão teve conhecimento e disse-me que não se opunha à reunião.

 

Eu, claro, como trabalhador, lá fui também à reunião, e ali fui o homem a abater, o homem a sanear, o alvo de todos os reparos e com culpa em todos os danos. Era apontado como o causador dos oito despedimentos, pois diziam que tinha sido eu a aconselhá-los ao patrão. Era assim o Verão quente, ali mesmo, vivido por dentro, até fervia…Eu não podia ser ovo, tinha que ser, quer quisesse ou não, ou carne ou peixe…ovo, neutro, nunca! Eram esses os valores nessa altura de revolução, nada de meios termos. Era tudo para a frente… Valeu-me nessa altura a amizade da maioria dos trabalhadores e lá me deixaram em paz…

 

Foi essa a primeira e única vez na minha vida em que estive para ser saneado pela loucura da multidão enfurecida e nada racional. Muitos episódios, muitas peripécias, muitos erros de muitas partes, muita teimosia, muita intransigência, muitos boatos, muita política suja e rasteira, aconteceram nesses meses de luta, que apesar de tudo foi uma luta leal por parte da maioria dos operários. O fim foi trágico, como penso que todos ainda nos lembramos. Afinal, não valeu a pena tanta luta e tanta canseira. A paixão levada a extremos, na maioria dos casos cega.

 

No dia do suicídio só me lembro de eu e o meu colega e amigo Custódio Pouseiro, dali sairmos, no seu carro em ritmo acelerado com a vontade de nunca mais ali voltarmos. E assim foi até hoje… Ficou a amizade entre muitos colegas operários, que, ainda hoje, passados trinta e quatro anos, me saúdam e lembram saudosos aquela época difícil.

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