SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 15 Junho 2021, 16:13

A nossa praia da Nazaré

 

Desde muito pequeno que tive o privilégio de ter uns pais que, apesar de viverem do seu trabalho e dos seus reduzidos vencimentos, me proporcionaram ano após ano, quinze dias de férias de verão, na praia da Nazaré, a praia mais próxima de casa e talvez por isso a praia dos torrejanos e dos ribatejanos na sua maioria.

 

Os tempos eram outros há cinquenta anos atrás, mas a areia dourada e o mar daquela baía da Nazaré, perto das rochas, sempre me inspiraram e fizeram com que eu e muitos como eu seguramente, passássemos a amar a Nazaré como sendo a nossa praia e os pescadores e as peixeiras eram como se fossem nossos conhecidos de há anos.

 

Os barcos pequenos e grandes que transportavam os homens para as traineiras, ancoradas ao largo, a sua entrada e saída no mar por vezes alteroso, eram um espectáculo delicioso e demonstrativo da perícia e da coragem dos lobos do mar. Junto à costa, na arte xávega, eram às dezenas os barcos a remos na sua faina habitual e quer estes quer as maiores embarcações eram puxados para terra por juntas de bois, que, com muito esforço e algum perigo, lá faziam o seu trabalho. Anos depois esta tarefa passou a ser executada por tractores.

 

Havia dias de mar muito bravo e as mulheres na praia a aguardar ansiosas a chegada dos barcos, chorando e rezando a Nossa Senhora da Nazaré para que lhes trouxessem sãos e salvos, os maridos, os irmãos e os filhos. Aquelas mulheres com as suas típicas sete saias e as suas vestes escuras de trabalho, muitas vestidas de luto e de saudade, eram aquelas que também puxavam as redes várias vezes ao dia e que discutiam das suas razões umas com as outras, naquele falar cantado tão genuíno daquela terra. Quando havia zanga era a sério entre elas, mas em tempos de acalmia, vestindo os seus trajes domingueiros, dos seus rostos saía a alegria e o orgulho de serem nazarenas. E meneando a anca mais as suas sete saias, falavam cantando umas para as outras “Oh pariga da praia !…”.

 

E havia os banheiros, velhos lobos do mar, que se dedicavam a dar banho aos meninos de família e sobretudo às senhoras de idade mais avançada, que eram por eles guiadas em belos mergulhos e em belas voltas e reviravoltas que a força das ondas por vezes propiciava. Este espectáculo era por volta das sete da manhã e a malta mais miúda ali se punha no paredão, de fronte da igreja, a olhar as damas aos gritinhos de medo e de frio com a temperatura da água. Os fatos de banho dessas senhoras não existiam, vestindo blusa e saias de roda, que por vezes faziam balões de ar que provocavam a risada geral dos assistentes. Era a t-shirt molhada desses tempos.

 

Falando em fatos de banho, ainda sou do tempo em que os homens usavam uns com alças e calção e só mais tarde passaram ao tronco nú. Os fatos de banho das senhoras eram bem fechados, só muito mais tarde começando a ser de duas peças. Começou aí, timidamente, o tempo do bikini às bolinhas amarelas… A malta miúda brincava com os bancos de madeira que cabiam a cada barraca, uns de assento e outros de recosto, que, de pés para cima, fizeram inúmeros quilómetros de transporte de areias, daqui para ali e dali para cá. Era até suar em bica. Também havia os toldos para quem por eles optasse, cujos paus serviam de traves da baliza, até que muitas vezes aparecia o tal Cabo do Mar e nos roubava a bola e o prazer.

 

Jogava-se à bola, de barraca a barraca, os baldes, os ancinhos, as formas de areia molhada, o jogo do ringue e o jogo do prego, a roda do aqui vai o lenço, o jogo de a praia da Nazaré ninguém pode andar em pé”,

 a cabra cega, enfim um cem número de divertimentos que se jogavam com os jovens amigos de várias localidades e que, em conjunto formavam os “grupos”, com jovens de várias terras, onde a amizade e os namoricos de praia tinham muitas vezes lugar.

Também foi na Nazaré que aprendi a nadar. A maré estava baixa e os mais pequenos, como eu, seguíamos agarrados aos canos dos banhos quentes, que ali existiam, e de repente, soltei-me do cano e flutuei…já nadava, para meu contentamento, ou melhor, já não ia ao fundo como um prego.

 

Por vezes a malta ia até às rochas molhar os pés, e outras vezes vínhamos em passeio para o sul, atravessávamos a foz do rio a pé e íamos até próximo da hoje Praia dos Salgados. Por entre a multidão, passavam dezenas de vendedoras de bolos frescos, com as suas caixas típicas de bolos, anunciando a bola de Berlim quentinha ,e os homens com aquelas caixas cilíndricas a anunciar os barquilhos com canela, havendo umas caixas que na parte superior tinham uma roleta, que indicada o número de barquilhos que cabia a cada um. Depois acabaram-se os barquilhos e veio a bolacha americana torradinha. Também os sorvetes antigos deram lugar aos Olás e a toda uma gama de gelados que até nos fazem perder a sede.

 

Lembro-me de um velho homem, de cabelo branco de prata e que vestia sempre casaco e calça brancos, que quando aparecia levava ates de si uma multidão de crianças. Era o Catitinha, e parecia que tinha mel para a pequenada. Às noites passeava-se no passeio da marginal, mais estreito e mais curto do que hoje, e eram às centenas as famílias que cumpriam esse ritual. Na Praça do Picadeiro, com o seu tabuleiro ao centro e o trânsito a circundá-la, as esplanadas estavam cheias de gente e também aí o passeio se processava.

 

A malta, à noitinha, tinha a mania de ir a uma padaria a meio da encosta, já próxima do mercado, comprar o pão quente acabadinho de cozer e que era delicioso de comer com manteiga, logo de seguida. Eram inesquecíveis aquelas férias na Nazaré. Ao chegar ainda me recordo de, quando o autocarro de Claras Transportes se aproximava da última curva da subida, ficar deliciado com a visão da encosta do Sítio e do elevador e o mar ao fundo. Estávamos a chegar à Nazaré, e a alegria era enorme. Ao contrário, no dia da abalada, a tristeza era enorme e ficava em nós a saudade e a vontade de para o ano lá voltar. É assim que eu recordo a Nazaré. A mais linda praia do mundo. A nossa praia.

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