SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sexta-feira, 25 Junho 2021, 13:18

A tertúlia do Damásio

Desde há alguns anos a esta parte, todas as terças feiras, certa rapaziada encontra-se à hora de almoço, à volta de uma mesa, para conviver, recordar velhos tempos, saber as novidades, comer belos pitéus confeccionados pelo colega Diamantino Rosa, belas sopas e óptimos pratos para saborear e de chorar por mais.

Aquilo é uma desorganização com uma organização impecável, pois há encarregados para as idas ao mercado e aos supermercados adquirir produtos de primeira qualidade, de preferência biológicos para que a saúde e a longevidade se mantenham, como todos queremos.

O local é num salão nobre do colega e amigo António Damásio e quase toda as família Neves ali está representada. Tem um aspecto humilde, mas a mesa é farta e a harmonia impera.

Depois, alguém trata de pôr a mesa para vinte ou para trinta, pois tem cabido lá sempre toda a gente que por ali aparece e for por bem.

Temos ainda um especialista em doçaria que descobriu um bom pasteleiro, que cobre os bolos de aniversário com quadros de sonho.

Resumindo eu há já largos anos era convidado a aparecer e regra geral não dispunha a minha vida de forma a ir ali conviver com os amigos.

Até que há cerca de dois anos lhes fiz uma surpresa, fui muito bem acolhido, comi, bebi, cantou-se um fadinho ou dois e porque gostei, passei a reservar quase todas as terças feiras para ali almoçar.

Numa das primeiras vezes, convidei o amigo e viola Rui Girão, levei um caderno com as letras dos fados e foi fado até fartar.

Reconheço que dei uma grande “injecção” à malta, mas ninguém se queixou e a coisa continua.

A ementa é de dieta, pois esta juventude com mais de 65 anos e sou dos mais novos, pensa e bem em cuidar-se, nada de exageros e que me lembre, uma ou outra “alegria” e nada mais.

A coisa transformou-se numa tertúlia, a tertúlia do Damásio, onde o lema é a concórdia e a amizade.

Muitos de nós fomos colegas de escola primária, outros nem os conhecia, há emigrantes, amigos de nossos amigos, e até quando se começa a falar de política, há unanimidade : Fale-se de tudo menos nisso !      Há um primo do Damásio, o Jorge Neves que vem todas as semanas salvo erro de Mação, por vezes traz amigos e é um exímio cantador de fado vadio. Canta à capela, sem guitarra nem viola, mas canta sempre e bem, valha a verdade.

Eu, muito animado pelo colega Carapinha, que semana a semana insiste comigo primeiro baixinho, depois em voz alta e por fim com umas valentes palmadas “amigas” nas costas, lá vou cantando também os meus fados e mesmo que às vezes as letras falhem, sobeja a amizade e a compreensão o que é muito importante.

Ali estão, regra geral o António Damásio dono da mansão, o Ribeiro, o Faria, o Paixão, o Jerónimo, o Luciano, o Rosa, o Manuel Bairro, os manos Pinheiro, o Nelo, o Vitor Neves, o José Neves, o Rosa, eu, o Carapinha, o Manuel Pereira, o Tininho, o Razões, o Amorim e o Manuel Sarabuga, sem nos esquecermos do elemento fundamental o cozinheiro Diamantino Rosa e outros mais, que são sempre a companhia que houver para manter a tradição.

Depois há os cafés, superiormente servidos pelo Restaurante Taberna do Avô, cujo proprietário faz parte integrante da malta.

Depois cada um devia ajudar na lavagem da loiça, uns mais outros menos, conforme a disponibilidade e as baldas.

Loiça a escorrer e até para a semana que há mais.

A tertúlia tem as suas normas e os seus segredos próprios de homens que vivem ali o prolongamento da sua juventude.

Regra geral quem vai de novo, não paga. É logo uma bela forma de receber. Tem é que lavar a loiça toda…

Em finais de festa, há sempre alguém que pede a “garrafinha da especial” que todos provam com agrado, dado o sabor inebriante a frutos da região e o odor a natureza. Tudo medicinal e leve.

Que me lembre só um abusou do produto e teve que ficar a dormir na sua viatura, de quarentena, para que o aroma passasse e para evitar desavenças familiares.

Agora só um aviso. A casa não é minha e a lotação esgota-se com facilidade, pese embora nunca ninguém tenha sido mandado embora…

Se ali quiser aparecer deve avisar um dos amigos citados, com antecedência, a fim de se poder contar consigo para efeitos de compra do produto.

Esta a minha memória de hoje, recente mas cheia de histórias do antigamente, de todos e de cada um.

Saúde e sorte e um grande obrigado ao António Damásio.

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