SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quinta-feira, 17 Junho 2021, 21:51

A dieta no namorico

Éramos um grupo de amigos e de amigas, a maior parte coralistas a que se juntavam outros amigos jocistas e estudantes nos colégios e na escola industrial da então vila de Torres Novas.

Corria o ano de 1962 e o referido grupo pensou em ir a pé a Fátima, em peregrinação, para rezarmos pelos nossos pecados e pelos pecados e tragédias do mundo.

Se bem o pensámos melhor o fizemos e no dia 12 de Maio, pela madrugada, lá marchámos em direcção às Lapas, Pedrógão, Alqueidão, até chegarmos à subida para a pedreira do Galinha. Ali chegados, antes da zona dos dinossauros, lá metemos por atalhos e pelo mato, até atingirmos a povoação de Fátima e só depois chegámos com os pés em estado lastimável, cansados e ensonados, ao Santuário da Cova da Iria, onde os “quartos” dos jardins estavam quase todos ocupados por outros milhares de peregrinos que já tinham escolhido a” Pensão Estrela da Alva” para pernoitar.

Lembro-me que a minha recente namorada não foi, porque o casal Augusto e Manuela Neves, namorados na altura, nos convenceram que ainda éramos muito novos para namorar e que deveríamos parar cerca de um ano, em que seríamos só amigos. E acreditem que seguimos o conselho, o período estipulado é que foi encurtado e bem depressa.

Também me lembro que tinha partido nessa altura o meu pulso esquerdo que estava engessado e que estavam tantas raparigas quanto rapazes, as mães de algumas meninas, e só me lembro da Liege , da Ziza e de sua mãe e da Teresa Canelas, que estava “solteira” porque o seu Manuel estava para o Ultramar a cumprir serviço militar.

Pelo caminho ia-se cantando e rezando ou rezando e cantando, que é a mesma coisa. Os quilómetros lá se iam matando.

Ela, a Teresa, “solteira” e eu de braço engessado, fomos logo escolhidos para fazermos a separação entre meninas e meninos.

E lá se passou assim a noite, logo a seguir à procissão das velas.O frio gelava os corpos e por mais mantas e cobertores que nos cobrissem parecia que estávamos a dormir dentro de uma arca frigorífica.

Não se dormiu quase nada embora as anedotas, santificadas como se adivinha, nos aquecessem por vezes os interiores, tal era a “contida” risota, para não prejudicar os vizinhos, noutros quartos com vista para o céu.

E lá se passou a noite e da parte da manhã assistiram-se às cerimónias e após a procissão do adeus, lá nos preparámos para o regresso, também a pé valha-nos Nossa Senhora.

O regresso, como era a descer, fez-se mais depressa e depressa chegámos a nossas casas, desertos para tomarmos uma boa e retemperadora banhoca e cuidar dos pés, que com mais esta forte andança doíam a bom doer.

A condição de amigos entre mim e a Amélia durou pouco mais tempo, pois era muito difícil andarmos ambos no Phydellius, irmos a bailaricos particulares e conviver com a rapaziada e sermos somente “amigos”.

Combinámos um encontro na igreja de Santiago para disfarçar e logo ali reatámos o namoro, com reforçada amizade.

Abençoados por Deus e por Santiago lá voltámos a namorar.

Só nos restou pedir a compreensão ao casal da ideia, o Augusto e a Manuela Neves que sorrindo nos disseram para sermos muito felizes.

E assim o fomos durante toda a vida.

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