SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Terça-feira, 15 Junho 2021, 17:54

A pirâmide de Natal

Já lá vão muitos anos, estávamos no tempo em que a Rádio Local de Torres Novas ainda era uma rádio pirata e dava cobertura a espectáculos no teatro Virgínia, a concertos corais e outros, a desfiles de Carnaval que nessa altura faziam desta vila de Torres Novas uma terra onde havia alegria de viver e onde o povo se unia em realizações mais ou menos populares.

Houvesse o que houvesse de interesse público e ali estava quase sempre a Rádio Local de Torres Novas e os seus colaboradores a darem o melhor de si, com meios incipientes, mas tudo era feito com muito amor e conseguiam-se fazer autênticos milagres de transmissões radiofónicas nessa altura.

E lembro-me que foi num Natal distante que um grupo de colaboradores lançou a ideia de realizar uma Pirâmide de Natal, em que se colheriam as ofertas singelas dos ouvintes e que reverteriam para os mais pobres e desfavorecidos que sempre existiram, porque o problema da pobreza já não de hoje nem de ontem, é um problema de todos os tempos.

Pensávamos implantar a árvore de Natal em plena Praça 5 de Outubro, mas a Câmara Municipal, na altura presidida por Arnaldo Santos entendeu que seria melhor a sua colocação num canto do Almonda Parque, próximo do Félix Carreira, num local mais discreto, para não chocar os habituais frequentadores da nossa praça principal. Mesmo assim tivemos o apoio da Câmara o que se deve enaltecer.

E aí fomos nós, mais de vinte colaboradores, montámos um estúdio de rádio numa tenda, pois a época era de chuva e lá propagandeámos a iniciativa.

A princípio as pessoas começaram a vir receosas, pouco convictas do êxito da campanha, mas hora após hora a corrente de solidariedade foi crescendo e começaram a formar-se filas de gente boa e anónima que queria ajudar conforme pudesse. E foi tão bonito e comovente para nós, ver pobres a ajudarem os outros pobres, com sacos de arroz e de massa, com litros de azeite e garrafas de vinho, com bolos caseiros e chocolates para os mais pequenos, depois começaram a aparecer algumas empresas que já entregavam ofertas mais volumosas que por elas eram produzidas ou comercializadas. A iniciativa teve tal êxito que resolveu-se prolongá-la por mais um dia e a corrente de solidariedade continuou sempre a aumentar.

Os produtos eram entregues a instituições de solidariedade social da vila e a comoção era igual para quem recebia e para quem oferecia.

Pouco se falou depois da iniciativa de um grupo anónimo da Rádio pirata de Torres Novas, mas ficará sempre a memória de que a rádio praticou o bem, num Natal já distante, tornando mais quente e feliz o Natal para algumas famílias da nossa terra.

Só recordo aqui um pormenor, de alguém que certamente nos escutava e que nos olhava da sua janela. Pois bem, de repente vimos esse senhor sair de sua casa e dirigir-se a nós, dar-nos os parabéns pela iniciativa e entregar-nos um cheque de 50 contos, assim sem mais nem menos.

Era muito dinheiro para essa altura, mas a acção essa não tinha preço.

Agradecemos e rejubilámos de alegria por ver a nossa tão simples iniciativa ser tão ricamente reconhecida pelos nossos ouvintes e amigos.

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