SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Quarta-feira, 16 Junho 2021, 13:03

O Marto e o Francisco – (amigos desde a escola primária)

E de repente volto à minha escola primária no Salvador e aos meus colegas de escola com os quais felizmente ainda mantenho contactos mais ou menos frequentes.

E hoje venho aqui relembrar dois desses rapazolas, de condição muito humilde mas que sempre fizeram o favor de ser meus amigos e dos fixes até hoje.

Filhos de pais pobres, moravam fora da então vila e diariamente vinham a pé de suas casas, uma na Atouguia, outra para os lados dos Mesiões, quer fizesse frio ou calor, quer chovesse quer estivesse o dia limpo, o Marto e o Francisco Lopes dos Santos sempre chegavam à escola, pontualmente, cansados, molhados ou transpirados eles ali estavam sempre, com a alegria possível mas sempre com uma amizade inquebrantável.

O professor primário da primeira à quarta classe foi sempre o professor Domingos de Oliveira e se o Marto era um aluno regular o Chiquito era, de longe “só” o melhor aluno da classe, sendo a inveja de muito rapaz filho de boas famílias. Ainda hoje todos nos lembramos da sabedoria do Chico e do seu exemplo de rapaz pobre mas muitíssimo inteligente e aplicado, sendo o meu dever pôr o preto no branco e dizer-lhe que ele de facto era o melhor aluno e não eu, como ele ainda hoje teima em afirmar.

Depois da escola, cada um tomou o seu caminho e só de vez em quando nos víamos, sendo sempre uma alegria o nosso reencontro. O Chico ficou-se por um honesto empregado de armazém de tecidos, no Galamba, onde esteve até à reforma. Quanto ao Marto, continua sempre magro e seco de carnes e a dedicar-se por conta própria ao amanho das suas terras que se situam na Atouguia. Sempre que me encontra convida-me a ir até à fazenda mas o meu caminho nunca para ali me guiou e devo-lhe esse pedido de desculpas.

O Chico encontro-o com mais regularidade, continua a ser aquele rapaz bom e humilde, sempre com um sorriso nos lábios a quem a sorte não sorriu pois de entre os quase quarenta colegas de escola primária era o que tinha mais possibilidades de ser alguém.

Termino com a consciência que faço justiça a dois homens que fizeram a sua vida, por caminhos diferentes, mas que sempre pautaram a mesma pela honradez e foram e ainda são amigos dos seus amigos até final dos seus dias.

Através deles vai a minha homenagem a todos os restantes colegas de escola que viveram e vivem vidas bonitas e singelas, fazendo jus ao que o mestre Domingos de Oliveira sempre nos ensinou.

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