SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Domingo, 20 Junho 2021, 16:45

O meu fado

Foi em Junho de 1955, tinha eu portanto 8 anos, que cantei o fado pela primeira vez. Foi precisamente o fado de Vila Franca, e cantei-o no Teatro Virgínia antigo ali no largo do Paço na então vila de Torres Novas.

Nessa altura três personagens tiveram grande influência no meu gosto pela canção nacional, o Abel de Sá, o Campanheiro e o Fontinha do tribunal e como gostavam da minha voz toca de me incluir em vários serões fadistas da região.

Também me lembro bem do segundo fado que cantei, na inauguração do restaurante Pinco, na Rua Nova de Dentro, na sala do primeiro andar, foi o “Namorico da Rita”, acompanhado pelo conjunto Niger.

A partir daí o Abel lá me ia ensinando alguns fados como “A Biografia do fado”, o “Velha Lisboa”, “Sempre que Lisboa Canta” e o “Povo que lavas no rio” com a música do fado Vitória, ensinando-me também com a mesma música um fado com letra de sua autoria intitulado “Dá cá um beijinho ao Brotas”.

Foi uma juventude de fado boémio que se foi enraizando em mim para toda a vida, pois gosto e gostarei sempre de ouvir e de cantar o fado com ou sem acompanhamento musical pois o ambiente é que conta e quando menos se espera lá sai um fadinho.

Fui crescendo, mudei a voz para mais grave e comecei a ser influenciado por fadistas como Toni de Matos e Carlos do Carmo, Carlos Ramos e Tristão da Silva e sem nunca os imitar cantei fados seus, como as”Canoas do Tejo”, “Lisboa Menina e Moça”, “O Fado das Castanhas, “Que estranha forma de Vida”, “O Vendaval”, “Procuro e não te encontro”, Biografia do Fado e “Da janela do meu quarto”, que regra geral saíram a contento. São todos fados com melodia e não fados tradicionais e para os “puristas” do fado não é bem fado castiço, mas sim fado canção.

Com o devido respeito pela sua opinião permito-me discordar, pois fado é fado, seja menor, maior, corrido, musicado ou falado, o fado é o sentimento de quem o canta, é a voz que soa e que enche a alma de quem o escuta e de quem o sente.

Estive durante largos anos afastado destas lides, pois dediquei-me ao Phydellius e aos Kalyfas quase a tempo inteiro, mas nos últimos dez anos o fado ressurgiu em mim. Primeiro pela Toca do Girão, com boas vozes e bons músicos tendo por base o meu grande amigo e excelente viola de fado, Rui Girão.

Depois fui entrando na família fadista da região onde já conheço algumas dezenas de companheiros fadistas e não penso parar mas sim continuar a aprender fados tradicionais antigos, que para mim são novos a estrear.

O meu propósito é gravar oportunamente um CD, que fique para perpetuar esta faceta da minha vida, afinal a minha grande paixão, a música e o fado em particular. Vamos a ver se o consigo.

Assim a voz me não doa.

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