SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Sábado, 12 Junho 2021, 19:23

António Lúcio Vieira – a poesia o teatro e a vida

Falar de António Lúcio Vieira é para mim de certa maneira fácil, embora o faça de uma forma informal, resultante de sermos amigos leais e sinceros há largos e largos anos da nossa vida.

Ao Lúcio, natural de Alcanena, sabia-o funcionário dos escritórios da empresa Claras e ele certamente conheceu-me ainda como estudante. Era um rapaz falador e nada reservado e foi fácil entabularmos conversas várias e iniciar um relacionamento normal de amizade.

Depois ele descobriu em mim o meu gosto pela canção, pelo Phydellius e até pelas anedotas, ramo em que ele também era especialista, não fosse filho do seu pai, motorista de Claras e um poço de alegria e comicidade com quem tinha o privilégio de se deslocar tendo-o como motorista.

Eu pelo meu lado, comecei a descobrir no Lúcio a sua veia para a escrita, para a prosa, para o cinema, para o teatro e sobretudo para a poesia. E era um prazer vê-lo de um momento para o outro fazer belos poemas de elevado nível.

Foi ele quem escreveu muitos poemas de canções famosas de Paco Bandeira durante seis anos, o mesmo começando a suceder com o aparecimento em Torres Novas dos saudosos festivais da canção, em benefício dos bombeiros da nossa terra. E então escreveu para a Maria Adelaide, para o José Manuel Cunha para mim e para outros, dezenas de poemas de belas canções, musicadas quase todas pelo grande maestro goleganense António Gavino.

E a tudo se propunha com entusiasmo e amor, tudo de graça, sem nunca ter vendido a sua arte, os seus belos poemas.

O Lúcio tem vários livros editados, de teatro alguns, de poemas outros, mas sempre foi assim, amigo do seu amigo e amante de dois dedos de conversa numa mesa de café ou numa tasca, tomando a sua imperial da ordem.

Aliás era frequentador assíduo do Zé da Ana, com um grupo de amigos de quem destaco os saudosos Abel de Sá e Carlos Ferreira (Necas).

Por falar em livros, perguntamos para quando a publicação de um livro de recolhas do concelho de Torres Novas, que sei acabado há anos e que continua à espera, não sei de quê nem porquê.

Actor, escritor, muito bom locutor de rádio na Rádio Ribatejo e na Rádio Voz de Leiria  e encenador do teatro que tanto ama, nele fez e faz de tudo um pouco, com um entusiasmo e uma dádiva, dignas de todo o apreço. Em tempos a sua actividade cultural quase estagnou e respondeu-me à pergunta que lhe fiz com um desabafo: “Estou divorciado, estou farto de tanta mediocridade !”.

Mas um homem como o António Lúcio Vieira não se entrega e depressa voltou a escrever com entusiasmo e com o nível de um escritor de primeira água.

Os seus poemas não são todos fáceis de ler à primeira e eu um dia tive que pedir perdão, por numa das minhas mais bonitas canções ter tido a ousadia de lhe dizer que não entendia bem o poema. Mas o certo é que depois de cantado e recantado, esse mesmo poema foi dos mais lindos que o Lúcio alguma vez me ofereceu. Chamava-se “Inventar a Esperança”. E obteve o 2º Prémio no Festival da Canção Popular de Leiria.

Depois é bom recordar aqui a “Viagem no meu país”, “Caminhos”, “Sabes Amigo”, “Elegia à Rua 32”, “Hoje faz da vida uma canção de amor”, “Olá amigo do Norte”, “Escuta mulher, esta é uma canção de amor” e tantos e tantos mais poemas que foram e ainda são cantados por este país fora.

E permito-me fechar este texto com um excerto do final do seu poema “Às vezes “, que revela bem a sua maneira de ser:

“Às vezes sinto que serei sempre tempestade

nesse leviano devaneio do destino

que à lama me tomou e fez humano

e sei que no retorno à mesma lama

há-de restar de mim um cantar eterno

mesmo que se creia calada a minha voz”

Aquele abraço amigo, para honra minha e dos leitores que te apreciam.

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