SEMANÁRIO REGIONALISTA DE TORRES NOVAS | FUNDADO EM 1918 | ANO CI | Diretor: Nuno Vasco Batista Nunes | Segunda-feira, 21 Junho 2021, 22:59

Na garagem Claras a fazer “olhinhos” às miúdas

Era certo e sabido que quase todas as tardes havia uma malta fixe que se entretinha a ir até à Garagem Claras para olhar para as caras bonitas das miúdas do Santa Maria e da Escola Comercial que normalmente tinham de apanhar as camionetas que as levassem de regresso a suas casas. A “malta” era eu, o Julião, o André, o João Luis, o Lavos, o Tarinho e outros que iam rodando na arte de olhar para as meninas do Santa e da Escola

A “malta” até sabia de cor e salteado os horários das carreiras para Minde, Marruas e Entroncamento e lá tentava, cada um por si, fazer olhinhos a algumas miúdas giras, para ver se éramos correspondidos.

As camionetas partiam e de troca de olhares nada ou quase nada, o que significava desolação por parte dos machos ali presentes à espera não sei de quê.

Ainda me lembro que a camioneta para o Entroncamento era às quatro e trinta e quatro da tarde. Mas não se perdia a esperança porque sem nada se combinar, à hora habitual, ali estava a rapaziada à espera que elas viessem e ali o local era privilegiado, pois elas apareciam de um lado e do outro.

Nos intervalos jogava-se snooker e matraquilhos numa casa de jogos pertencente ao senhor Marujo. Depois, lá se voltava a ir “olhar para a sombra”, como se dizia da situação. Mas certa tarde fui surpreendido por um bilhetinho que a menina Lena Baracho, aluna do Colégio de Santa Maria, me entregou. Lá me disse de quem era o bilhete e depois de o abrir e ler, fiquei a saber que uma moça dos lados do Entroncamento gostava de mim.

Depois foi só descobrir os lindos olhos da dita cuja e dedicar o meu tempo de observação a troca de olhares entre nós.

Os amigos chamavam-me de “felizardo”, mas cada um sabia da sua vida. Os encontros futuros, de quem tinha 13 anos, foram muito poucos e a timidez não deixou que muito acontecesse.

E para um puto como eu, ter uma miúda que nos escreveu dizendo que gostava de nós, sabia bem e até me fez pensar que eu gostava dela.

Não gostava nem desgostava, foram mais umas longas viagens de camioneta ou a pé, acompanhadas geralmente pelo meu amigo Amadeu, que nunca mais vi até hoje.

Até que…a minha “namorada” me disse que estava tudo acabado entre nós. Que porca de vida aquela. Tanto tempo perdido, tanto sapato gasto para agora ficar sozinho.

O que é certo é que me deu uma “coisa ruim” e decidi que não podia continuar só. E vai daí, numa noite num mês de Maio, o mês de Maria, decidi sair da casca e desatei a pedir namoro, não a uma, nem a duas, mas a umas cinco, de seguida e na mesma noite. Umas pasme-se, aceitavam logo, outras pediam-me tempo para pensar que depois me dariam a resposta e só houve uma que me chamou tonto e que me disse redondamente que não, mandando-me dar uma volta…

Ai ela é isso? Pois foi ela que eu tive que conquistar, foi com ela que namorei mais de nove anos e com quem casei e constituí a minha abençoada família.

jorgepinheiro47@hotmail.com

Partilhe!
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp
Share on email
Email
Share on print
Print
Share on reddit
Reddit
Jornal O Almonda, 2021 © Todos os direitos reservados